O caminho do contrário

Por Andreia Moroni
Coluna Educação Bilíngue

Dedico esta coluna aos alunos e colegas dos cursos de formação em PLH da BEM e do Elo Europeu por toda a troca e aprendizado.

Como talvez tenha acontecido com muitos de vocês, no momento de imigrar, de mudar de país, houve aquela pressão imposta de forma às vezes bastante violenta para aprender a língua do outro. Desse outro estranho, estrangeiro (mesmo quando o estrangeiro somos nós). Se não, não haveria trabalho. E, sem trabalho, a gente não paga as contas, é um aperto só. Ainda que implícito, esse convite para o bilinguismo muitas vezes se dá assim: entre adultos, na base da porrada. Uma relação bem ao contrário do colo e dos afagos recebidos no aprendizado do idioma materno na primeira infância.

Hoje vivemos a maioria das horas nessa nova língua, fora e dentro de nós, numa convivência pacífica ou ao menos cordial na qual ambas as partes se respeitam. Tanto que os anos começam a se tornar décadas – e estamos bem. Temos filhos. Nossa relação com as crias se constrói em outras geografias, com outras topografias familiares, num cenário cosmopolita rico em estímulos internacionais onde as palavras têm outros sons, letras, acentos. Tudo isso além e independente da língua que eu escolhi como minha. Num lugar que eu escolhi como meu.

Em mim e ao meu redor, o lugar da língua dentro da boca e a maneira de fazer beicinho pra falar são diferentes. O jeito de rir e de ficar bravo, também. E tudo isso será a língua de meus filhos, quer eu a ensine a eles, quer não.

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É então quando acontece o contrário do contrário. Essa criança, que cresce na certeza de falar a língua do entorno, tem a possibilidade de aprender um segundo idioma na base do amor. Do colo, do carinho, de coisas que farão sentido para ela pelo resto da vida. Desde miudinho, com alguém para segurar na mão e mostrar o caminho.

Dentro do panorama de estudos do bilinguismo, fala-se muito no ensino de língua estrangeira e outras formas de tornar-se bilíngue geralmente assim, na base da porrada. Eu acho que as línguas de herança são um caso especial e à parte, que destoam desse cenário, por conta desse caminho do amor, do afetivo, que, mesmo que não resulte em proficiência numa primeira infância ou num “bilinguismo equilibrado” já na vida adulta, marcam a transmissão. Transmissão que não é só de uma língua, mas de uma cultura, de uma maneira de ser e estar no mundo, que permanece com ou sem som.

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Para morrer de fofura com os falantes de português como língua de herança, convido vocês a ouvirem a “Rádio Pequenos Repórteres”, projeto de educomunicação da professora Michelle Soares, da Associação de Pais de Brasileirinhos da Catalunha, em Barcelona, na Espanha. A participação está dentro do programa Con Más Brasil, apresentado em espanhol pela brasileira Elisa Duarte. Aliás, como vocês podem observar, tanto a Michelle como a Elisa são “new speakers” de espanhol (gente que se tornou falante e o adota uma nova língua já num momento mais maduro da vida). Mas isso já é outra história.

http://www.ivoox.com/con-mas-brasil-entrevista-michelle-soares-audios-mp3_rf_3669932_1.html

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