Pelo Mundo: arte no Japão

Por Andrea Menescal
Coluna Pelo Mundo

japan_640Você sabia que no Japão existem várias escolas brasileiras, algumas até reconhecidas pelo Ministério da Educação do Brasil? São escolas com currículo e calendário do Brasil; iniciativas voluntárias ou particulares em várias localidades. Mas na região de Osaka existe uma única iniciativa voluntária com um programa voltado ao ensino da cultura brasileira e do português como língua de herança: o Projeto Construir/ARTEL – Oficina Arte Educação e Letramento.

Luzia Tanaka é uma das pessoas atuantes nesse projeto. Formada em Educação Artística pela FAAP (SP) e em Pedagogia (Convênio Brasil-Japão entre as Universidades de Tokai e a Federal de Mato Grosso), Luzia fez cursos complementares na área de educação e terminou recentemente a Formação para Professores em Português como Língua de Herança da Brasil em Mente. Embora trabalhe há 17 anos com massagem e podologia, Luzia dedica suas horas vagas para o Projeto Construir/ARTEL, além de prestar assistência voluntária como tradutora/intérprete, acompanhando brasileiros com dificuldades na língua japonesa para os mais diversos assuntos, além de acompanhar crianças brasileiras em escolas japonesas.

Plataforma Brasileirinhos – Conte-nos um pouco de sua trajetória pessoal no Japão e seu envolvimento como o Português como Língua de Herança (PLH).
Luzia Tanaka –
Em 1996, com o Brasil em crise e o Japão de portas abertas para descendentes de japoneses, vim pensando na oportunidade que minhas duas filhas poderiam estudar em um país de primeiro mundo. Nina e Mila estudaram aqui desde o primeiro ano do ensino fundamental e se formaram este ano na Pool Gakuin University, em Osaka.

Embora tenha dado logo quando cheguei algumas aulas de português para os filhos de uma brasileira que pretendia voltar para o Brasil, e foi ai que pensei no ensino de PLH quando procurava aulas de português para as minhas filhas. Elas estavam com 16 anos e se (re)descobriram brasileiras ao sofrerem discriminação na escola. Nessa procura conheci uma professora em uma escola secundária de Osaka e por intermédio dela conheci, mais tarde, a criadora do Projeto Construir, Maria do Carmo Endo.

No Projeto Construir/ARTEL comecei fazendo um trabalho voluntário de tradução/intérprete mas minha participação se tornou mais frequente quando começamos a ter um número maior de crianças que não falavam a língua portuguesa (seus pais, brasileiros, queriam que seus filhos frequentassem nossas atividades para ter mais contato com a cultura brasileira). Inicialmente auxiliei a professora da época com as crianças que só falavam japonês. Depois de alguns meses assumi por completo a turma que tinha uns 5 alunos.

PB– Quantos alunos existem hoje?
LT –
Diretamente são 20, muitos dos quais frequentam há mais de dois anos consecutivos as nossas atividades. Uma conquista árdua! Indiretamente podemos dizer que esse número chega a ficar duas ou três vezes maior, dependendo da atividade. As crianças tem de 6 a 13 anos e são todas brasileiras (quatro tem pai ou mãe brasileiras/japonesa e as demais possuem pelo menos um dos pais com origem japonesa, embora nascidos no Brasil). As aulas são dadas na sede do Projeto Construir/ARTEL em Sakai e acontecem às sextas-feiras, das 17h às 19h, e aos sábados, das 9h às 11h.

PB -Você precisou modificar alguma coisa no ensino de PLH quando assumiu as aulas naquela época?
LT– Precisei. As cartilhas, até então utilizadas, foram abolidas e passamos a ter a língua japonesa como uma das línguas de comunicação. Elogiar as crianças para os seus pais também fazia parte dessas mudanças. O termo PLH para nós é bastante recente e veio preencher um vazio que existia entre o conteúdo e a maneira como trabalhamos com as crianças e o que é proposto como ensino de português através dos materiais totalmente vindos do Brasil.

Screen Shot 2014-11-01 at 9.18.22 AMPB – Qual é o conteúdo e o material utilizado por vocês nas aulas?
LT- Tanto o conteúdo como o material utilizados são, em geral, decididos a partir das observações e dos interesses das crianças. Às vezes um tema é escolhido para ser trabalhado durante um determinado período e algumas idéias, principalmente as extra-curriculares, são discutidas com a senhora Rimi Yamada, voluntária no Projeto Construir/ARTEL. Já trabalhamos, por exemplo, temas como “Quem eu sou? Onde Estou? Onde moro?”. E este ano, com a Janela de Contação de Histórias, tivemos o tema “Minha História”. Nosso objetivo é aumentar o vocabulário dos alunos, estimular a leitura e a escrita e aprofundar mais assuntos referentes às suas origens brasileiras.

PB – Como isso acontece na rotina de aulas?
LT
– As crianças, empenhadas nas diferentes atividades, vão, aos poucos, lendo e escrevendo e durante essas atividades vamos trabalhando os tópicos de geografia, matemática, história e ciências. Buscamos envolver um pedacinho das nossas histórias. O nosso objetivo é que cada criança (re)conquiste a sua autoestima e desenvolva as suas mais diversas capacidades; que se sinta orgulhosa de ter origens no Brasil e que, com calma e tranquilidade, cada uma em seu ritmo, (re)descubram a alegria de aprender e estudar português. Realizamos muitas brincadeiras, desafios, leituras de figuras, jogos de bingo… e oferecemos espaço, por exemplo, para as crianças que tiverem interesse em preparar e dar uma aula para a turma. O que não pode faltar é a Roda de Conversa: falar o que foi bom ou ruim na semana, o que os preocupam ou os deixam felizes. Essa conversa pode durar 15 minutos ou até uma hora, dependendo da necessidade do grupo. Para nós, professoras, é um momento de observar e detectar onde estão as dificuldades, expectativas e os desejos.

PB – Que material vocês utilizam?
Luzia Tanaka –
O material é produzido por nós de acordo com o tema ou o assunto que estamos trabalhando. Alguns materiais são para todos, independente da idade; outros são diferenciados, conforme o interesse de cada criança. Trabalhar assim é um desafio. Os principais eixos trabalhados são a linguagem da arte e a oralidade. A metodologia e o currículo são pensados e elaborados levando-se em consideração cada criança e, ao mesmo tempo, o momento do grupo. O grupo não é dividido por idade; em vários momentos as crianças trabalham juntas num mesmo espaço e, em outros, agrupam-se de acordo com as atividades propostas ou por interesse.

PB – E o que não pode faltar nas aulas?
LT – A liberdade de usar a língua que se sente mais confortável (português ou japonês) para se comunicar, um intervalo para as guloseimas e um elogio sobre os filhos para os pais.

PB – Parece-me que os concursos de desenhos infantis do Ministério das Relações Exteriores tem um papel especial no trabalho de vocês. Alguns dos seus alunos já foram, inclusive, premiados, não é?
LT –
Realmente. Os concursos de desenhos “Brasileirinhos no Mundo” são um momento bastante importante para se trabalhar a cultura brasileira e as raízes. Temos aproveitado muito dessa iniciativa do Governo brasileiro. Para o concurso preparamos materiais para a pesquisa como slides, livros, videos e entrevistas com os pais e marcamos alguns dias de oficinas com longas horas de duração para que cada criança tenha tempo suficiente para produzir seu desenho com tranquilidade. Participamos dos três últimos concursos e os resultados foram os seguintes: No II concurso nosso aluno Maurício Madanbashi teve o desenho “Pau Brasil Sofrido” classificado em sexto lugar, no III concurso foram premiados os desenhos de quatro crianças, ilustrando o livro Brasileirinhos, publicado pelo Itamaraty. No IV concurso o desenho da Stella Riko Uchidomari Nakamura foi premiado em segundo lugar, além das duas menções honrosas: o desenho “Rio de Pescaria”, de Kauan Seiji Yorioka Hamada, e “Uma praia e uma pequena vida”, de Gabriel Hiroshi Ono. Com a participação nesses concursos, todos somos presenteados: ganhando conhecimento sobre o Brasil, sobre a utilização de novas técnicas e materiais e, principalmente, com o trabalho conjunto que fortalece cada um.

Stella Riko Uchidomaria Nakamura - categoria II - 2o. Lugar " Natureza Pura do Rio Amazonas"
Stella Riko Uchidomaria Nakamura – categoria II – 2o. Lugar
” Natureza Pura do Rio Amazonas”

PB- Vocês organizam outras atividades extra-curriculares como passeios, música, etc em português?

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LT – Portanto, nós as levamos a museus, aulas de artes, atividades em bibliotecas, entre outras. Como muitas dessas atividades são em japonês, (re)trabalhamos depois os temas em sala de aula. Neste verão levamos as crianças para o Museu Nacional de Arte e o Museu de Ciências da Cidade de Osaka. Organizamos, também, muitas atividades como festas de aniversário, churrascos com brincadeiras brasileiras, entre outras. Todas essas atividades tem reforçado o aprendizado do PLH.

PB – E os pais das crianças, são participativos?
LT –
No início do nosso trabalho havia muita insegurança ou falta de confiança por parte dos pais pelo fato de não haver lição de casa ou uso de livros de escolas brasileiras. Mas, de dois anos para cá, essa relação com os pais tem melhorado muito, especialmente depois que passamos a ter um programa de acampamento de verão em que a condição para a criança participar é a presença de um dos pais ou parentes próximos.

Gabriel Hiroshi Ono - Menção Honrosa - categoria II " Uma Praia do Brasil e uma Pequena Vida"
Gabriel Hiroshi Ono – Menção Honrosa – categoria II
” Uma Praia do Brasil e uma Pequena Vida”

PB – Como são esses acampamentos?
LT-
Em geral são pequenas viagens de dois dias para a praia ou montanha durante as férias de verão. Este ano fomos para as montanhas de Nara, a Furusato Mura, a pedido das crianças. Nadamos no rio, alguns tomaram banho de cachoeira, as crianças fizeram pesca de trutas com as mãos, brincamos de pular corda, bingo, de partir melancia com venda nos olhos, etc. Em 2013 participaram 44 pessoas. Em 2014 foram 33, entre crianças, pais e voluntários, pois sete dos nossos alunos foram passar as férias no Brasil (a pedido deles).

PB– Em que outra atividade vocês contaram com o envolvimento dos pais?
LT–
Nas festividades da cidade de Sakai. Foi a primeira vez que nós, brasileiros, participamos como comunidade nesse evento. E a presença dos pais foi fundamental. Foram quase três meses de ensaio e confecção das roupas e objetos para a apresentação que fizemos. Esse evento, a meu ver, representou uma forte aproximação dos pais com o nosso projeto pois todos cooperaram. E as crianças puderam ver seus pais realizando tarefas diferentes daquelas que sempre fazem. Isso também foi muito gratificante. Foram mais de 80 pessoas envolvidas com o evento.

PB – Isso mudou alguma coisa na maneira de os pais verem o trabalho de vocês?
LT –
Acredito que sim. Atualmente os pais aceitam e apoiam a nossa forma de trabalhar. Criamos um grupo no Facebook para nos comunicarmos e para passarmos diferentes informações para todos. Além disso, estamos criando uma biblioteca virtual para facilitar o acesso a livros para que crianças e pais possam ler juntos. Percebemos que, além das mães, os pais também tem se envolvido mais no aprendizado das crianças pois elas próprias solicitam a eles que lhes ensinem ou leiam livros em português. Agora procuramos realizar, com mais frequência, eventos que intensifiquem a participação dos pais.

PB – Nas comemorações do Dia Mundial do Português como Língua de Herança (16 de Maio) deste ano vocês inaguraram um projeto muito especial que contou com a participação de vários pais, não é?
LT –
É, inauguramos a Janela de Contação de Histórias, que é um projeto de estímulo à leitura. Transformamos a janela, que já era uma ideia antiga da Maria do Carmo Endo, em uma verdadeira janela com detalhes, como se fosse de alguma casa do interior, onde as pessoas se juntam para conversar, cantar, ouvir e contar histórias.

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PB – Você pode nos contar um pouco sobre o Projeto Kaeru e qual foi o envolvimento de vocês nele?
LT–
O Projeto Kaeru é um projeto que dá apoio e orientação, por exemplo, sobre educação escolar para as famílias que retornam ao Brasil. A cada dois anos a psicóloga Dra. Kiyoko Nakamura vem do Brasil para dar palestras em várias localidades japonesas e, ainda, prestar atendimento a famílias brasileiras. Este ano, pela primeira vez, fomos escolhidos para coordenar e divulgar o evento na nossa cidade, que contou, inclusive, com o apoio da prefeitura. E houve uma mudança no formato desses eventos pois, ao invés de palestra expositiva, passaram a ser rodas de conversa e o enfoque também foi um pouco diferente porque muitas famílias estão se fixando no Japão. Outra mudança foi a de introduzir a produção e criação de atividades nas quais pais e filhos realizam algo juntos. No nosso caso, foi a arte do “Quilling”, que contribui, por exemplo, para a coordenação motora fina e a concentração.

PB- Quais são os desafios do seu trabalho?
LT –
O maior desafio é despertar a importância do aprendizado do PLH e do bilinguismo nas crianças, de ter crianças fortes capazes de entender o porquê de estar aqui e não lá, que é possível ir daqui para qualquer lugar do mundo e que, nessa caminhada, elas se tornem pessoas que consigam dizer o pensam e o que sentem, seres capazes de ler o mundo que o cerca. O caminho escolhido não foi o mais fácil mas os resultados têm sido surpreendentes: no primeiro momento vem a conquista da confiança, trazendo melhoras consideráveis na autoestima, e o crescimento, a cada encontro, no interesse em aprender o português. É um processo demorado mas, ao mesmo tempo, firme e sólido. A nossa expectativa é de que até o final deste ano todos esteja lendo e escrevendo com mais segurança.

PB – Você nos contou antes que o conceito de Língua de Herança é novo para vocês. O que é trabalhar com o ensino de PLH para você?
LT –
Com certeza trabalhar o ensino do PLH é muito mais do que ensinar a escrever letras e palavras. Ele tem que ser algo que provoque “coceira na mente”, que traga à criança a alegria de querer (re)aprender o português e a cultura brasileira, fazendo-a pensar e repensar no que é, onde está e no que deseja ser, que permita que ela sonhe, se expresse e se torne um ser por inteiro capaz de enxergar a realidade que o cerca. Ler, escrever e falar, em qualquer língua, principalmente em português como língua de herança, aconteça da forma mais natural possível.

PB – Qual seria o seu recado para os pais?
LT –
Que sejam pacientes e amorosos com as crianças e que lhes favoreçam o bilinguismo. No caso do Japão, não confiar no fato de seu filho falar, aparentemente, bem as duas línguas e achar que ele está com o vocabulário necessário para acompanhar e se desenvolver na escola japonesa ou brasileira, caso volte para o Brasil. É preciso criar oportunidades tanto numa como na outra língua. Quando se vive em algum lugar do mundo onde só se tem o núcleo da família como base da língua de herança, é importante que o português seja mantido não só através de poucas palavras mas, através do diálogo, de músicas, muitas leituras e muita contação de histórias.

Blog Brasileirinhos – Você quer deixar um recado para outros educadores de PLH?
LT –
A nós educadores cabe o papel de ser aquele que será o intermediador das duas culturas, das histórias, uma espécie de “mágico”. Precisamos, junto com a criança, auxiliá-la para que ela encontre um caminho, uma forma de (re)conhecer as suas raízes, e para que construa, a partir dos seus conhecimentos e da suas vivências, a sua própria identidade. Ela não é fruto de uma única cultura mas a soma, quem sabe, de muitas.
A nós educadores cabe a alegria de ver florescer aquilo que cultivamos com muito amor, carinho e dedicação, depois de ter visto, muitas vezes, crianças e jovens “batendo”, literalmente, a cabeça na parede e dizendo que não entendem o porquê de ter que estudar uma língua de um país que jamais visitarão, talvez nem em sonhos…

A nós educadores cabe o reconhecimento das raízes dessas crianças e jovens, ver (re)nascer a brasilidade delas. Ouvir da criança, que nem queria ouvir falar em Brasil, dizer: “Eu quero ir para Minas Gerais, ver e tocar as pedras”. Isso representa um sinal de mudança que acontece depois de muito, muito tempo no qual foi trabalhado o sentimento dentro de si para que pudessem expressar o que pensam ou sentem, sem medo, culpas ou cobranças. É ter a sensibilidade para ver e sentir que a criança e o jovem que vivem em outros países, fora do Brasil, precisam de um tempo para entender o porque de estar aqui e não ali, de entender e aceitar as suas origens e que ser diferente é que faz a diferença. Passar para elas que é possível sonhar o seu sonho onde quer que esteja.

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12 comentários em “Pelo Mundo: arte no Japão

  1. Parabéns tia Luzia! Sinto muito honra em ter minhas filhas participando da Artel. O trabalho é mesmo feito com muito zelo e dedicação.

  2. Trabalho realmente muito lindo. Parabéns a todos os envolvidos, especialmente a entrevistada Luzia. Sou ilustrador já a alguns anos (tenho pós lato sensu em História da arte) e formando em Licenciatura em Artes Visuais. Me motiva saber que é possível ir para o Japão e se envolver em um projeto tão bacana como esse.

    Para um não descendente como eu, é possível seguir esse caminho da Luzia?

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