Carrego o mapa no bolso, e o Brasil no coração…

Por Denise Keiko-Shikako
Coluna Brincando

O post de hoje chega até vocês bem atrasado, depois de um curto e ensolarado verão de férias de verdade, seguido por um outono colorido e extremamente ocupado, e finalmente com a chegada de um longo e tenebroso inverno (primeiro dia de neve hoje por aqui!). E além de tardio, ele vem com menos ciência, e mais conversa fiada, mas dentro do nosso tema de sempre, brincar e a língua, o desenvolvimento e um pouco de tudo isso junto.

IMG_0039Verão passado a gente teve a chance de dar uma rodada pela Europa, em uma mistura de congressos, passeios avulso e troca de casas. Várias experiências novas, dentre as quais, ir pra Europa com crianças, e viver “como locais” em um “terceiro local”, depois do Brasil, depois do Canadá. Terceiro para os Mais um estudo mostrando que, crianças, mesmo as que apresentam um atraso de desenvolvimento global, criam mais sinapses e desenvolvem um vocabulário mais amplo quando expostas à múltiplas línguas consistentemente.adultos, segundo para as crianças, que nasceram e vivem no Canadá.

Um dos nossos objetivos da viagem era expor nossa filhota mais nova ao Francês. Ela até então tinha frequentado uma creche de língua inglesa, mas a partir de Setembro iria para uma escola francesa. Em casa, obviamente, só falamos português, então parte do “bem bolado” era buscar um pouco mais do francês “na fonte”. Isso dito, nós moramos em Montreal, um lugar onde a variedade de línguas escutadas ao andar por um quarteirão no centro da cidade é realmente impressionante. Aqui todo mundo fala a sua língua materna, e ela é raramente uma das línguas oficiais: inglês ou francês.

A viagem começou pela Áustria, congresso sobre desenvolvimento infantil, e mundo ao redor em Alemão. Do congresso, o que eu conto para vocês já nem é novidade:

Mais um estudo mostrando que, crianças, mesmo as que apresentam um atraso de desenvolvimento global, criam mais sinapses e desenvolvem um vocabulário mais amplo quando expostas à múltiplas línguas consistentemente.

Da Áustria, o que eu conto foi que entrar de repente em um país onde a maioria das pessoas fala “outra língua”, foi simplesmente imperceptível aos ouvidos acostumados à torre de Babel. Eu lembro claramente a primeira vez que saí do Brasil, e de ficar olhando ao redor, escutando gente falando uma língua que eu não entendia. Já meus filhos, em poucos dias estavam buscando palavras parecidas e jogando felizes nossos jogos de “como se diz… em (tal e tal língua)” .

Sendo assim, nosso tópico de “brincar” vai hoje para “jogos espontâneos pra se brincar de língua em trânsito” – ou: como brincar e aprender o tempo todo – ou ainda: como entreter crianças e ainda se sentir útil durante passeios turísticos “de adulto, esperando o trem, ou visitando o 35˚ castelo”. Despertar a criança para a riqueza da nossa língua, enquanto se descobre outras línguas é de fato um jogo que faz sentido na perspectiva do desenvolvimento.

Crianças aprendem muito por associação, isso já é fato conhecido. No entanto, por um lado, nós sabemos que a nossa língua materna vem pronta e impressa nas experiências e vivências do cotidiano (ou seja, criança não aprende a língua “traduzida”, como adultos – criança aprende que “sapato” é sapato, uma coisa que se coloca no pé, pra não molhar o pé quando está chovendo, pra não sujar a meia quando o chão está sujo, e algo que sua mãe vai mandar você colocar quando sair de casa, e não vai deixar você pisar no chão frio sem um – e não, sapato não é “shoe”. Shoe is something else… that oh… it’s also useful on cold floors) – e este é o jeito certo de aprender uma língua: vivendo nela.

Por outro lado, nós sabemos também que ao tornar algo “mecânico” em algo consciente, nós formamos um novo circuito na caixola. Por exemplo, crianças que tem dificuldade de desempenhar um certo movimento ou atividade, podem aprendê-lo com mais facilidade ao “vivenciar” o movimento durante uma atividade significativa, interessante, estimulante, mas também ao “racionalizar” o movimento: Para escrever a letra “A” eu tenho que colocar o lápis aqui na linha de cima, fazer um risco inclinado até a linha de baixo, voltar pra linha de cima lá de onde eu saí e fazer outro risco pro outro lado, depois preciso de um risco no meio”.

O mesmo funciona com a língua! Se nossos brasileirinhos ganharem a chance de brincar com a língua, encontrando paralelos, associações e estratégias cognitivas para “racionalizar” a língua, eles podem ter muito mais chance de “entender” como a língua se forma. E a cada novo jogo, uma nova conexão vai ser formando na caixola, abrindo caminhos para muitas outras.

E um dos jeitos de fazer isso sem tortura, é brincar de “como se diz…” , como seu pronuncia “Big mac” em Tcheco (e porque se pronuncia diferente sendo que se escreve igual?), quais itens do menu a gente consegue adivinhar o que é apenas pelo radical. Quem sabe mais palavras que começam com a letra tal, ou o som tal (para os pequenos ainda não alfabetizados) em mais línguas, quem consegue achar nesse castelo 3 palavras ou objetos que tem o mesmo nome em francês e português? – e por aí vai.

E não, eu não acho que cada momento da vida nós temos que estar buscando oportunidades de aprendizagem para as crianças, porque alguns momento são só pra curtir, pra brincar sem aprender nada “conscientemente”, mas, o princípio é o mesmo e pasmem, funciona para pais tanto quanto para filhos – quando a gente “racionaliza” e acha estratégias cognitivas para incorporar esses jogos na vida (do tipo, ao invés de enlouquecer com duas crianças famintas que andaram 4 horas em um tour e ainda tem que andar mais 2 antes de chegarem a um restaurante, eu vou jogar um daqueles jogos “de língua” que eu já pensei em um outro dia), maiores são as chances de proporcionarmos estas oportunidades no cotidiano, naturalmente – e de quebra proporcionarmos também mais oportunidades de aprender sobre nossa língua, naturalmente.

O balanço das férias?
Ninoca voltou com seu português ainda mais tinindo, e seu Francês ainda mais dormente do que estava antes, afinal, passamos 3 meses em família o tempo todo o dia todo, com francês só pra “Bonjour” e “Merci”, e “Je veux une crepe de Nutella sil-vous-plaît”, mas muita, muita diversão em português. Ela chegou na escola no dia 1 de Setembro agarrada na minha perna e respondendo à qualquer pergunta (de “como você chama”, à “quantos anos você tem”, até “como foram suas férias”?) com um “ Je ne parle pas français, juste un petit peu” (eu não falo Francês, só um pouquinho), frase ensinada pelo irmão e memorizada por ela.

Dois meses e meio depois de escola e ela passaria na França por uma perfeita “Quebecoise” (quem nasce no Quebéc, e fala o Francês daqui, com um sotaque bem característico), traduzindo pra mim as expressões que aprende na escola e solta no meio das muitas frases em Português meio que sem querer e eu não entendo, recebendo bronca da professora porque “a Nina sempre quer falar, e explicar tudo nos mínimos detalhes, até na hora de escutar”.

E enquanto isso, na caixola, os radicais tchecos misturados com o big mac alemão vão transmitindo sinapses formando novas malhas nunca antes navegadas pelo francês…porque se o mapa do mundo é grande, o mapa do nosso cérebro é infinitamente maior, e o GPS que guia os caminhos da aprendizagem passam invariavelmente pelo coração, de onde o Brasil, aqui em casa, é a capital.

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2 comentários em “Carrego o mapa no bolso, e o Brasil no coração…

  1. Imagina só se todas as crianças brasileiras, em destaque aquelas que vivem nas regiões mas isoladas desse imenso país chamado Brasil, pudessem ter a oportunidade de entrar em contato com tantas variedades?
    A pergunta parece triste e confrontadora, mas antes serve de atenção. Não é preciso fazer com que todas os milhões de jovens e crianças viagem para qualquer que seja o país afim de “engrandecer” o seu vocabulário.
    Na verdade, o mínimo, como aprender a identificar as distintas formas de pronúncia do português, expressões típicas de algumas regiões, como o “Oxente” ou o “Uai”; e a identificação de palavras restritas a tais regiões são os primeiros passos para fazer da criança brasileira, seja ela pobre ou rica, negra ou branca, menina ou menino, verdadeiros poliglotas; cosmopolitas na própria terra natal.
    A identidade se constrói assim, Aprendendo a respeitar diferenças.

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