O conceito de língua no contexto dos aprendizes de herança

Ivian Destro Boruchowski, MEd
Coluna Educação Bilíngue

A língua que utilizamos cotidianamente é um dos modos pelos quais nos constituímos humanos, com o qual produzimos sentido ao que somos e ao que expressamos. A língua é um sistema simbólico-cultural. Dizemos simbólico porque quando falamos ou escrevemos algo estamos no nível da representação. Isto é, a língua é uma forma de referência que substitui a coisa em si para que possamos falar e pensar sobre as coisas, sobre os sentimentos, sobre os comportamentos, até sobre os próprios pensamentos sem que necessitemos ter o objeto ou o assunto presente. A língua é cultural porque é uma expressão particular de como uma cultura representa seus objetos, seres, ideias, sentimentos, comportamentos, etc.

Ao falarmos, escrevermos, ouvirmos ou lermos acessamos um modo de dizer ligado a certos padrões, certas formas convencionadas de dizer. Por exemplo, existe um modo de escrever um bilhete, que é diferente de explicar para um filho porque ele deve escovar os dentes, que é diferente de fazer uma lista de supermercado, que é diferente de escrever um texto discutindo um conceito.

Podemos concluir que uma língua é um sistema simbólico-cultural que tem certos padrões de expressão que possibilitam aos falantes desta língua estabelecerem comunicação, desenvolverem relações e atuarem na sociedade (Hyland, 2002). No contexto das línguas de herança, acrescento que uma língua não só possibilita participar e atuar na sociedade, como também construir relações de pertencimento cultural e social, pois para os aprendizes de herança, aprender essa língua pode amplificar a relação de pertencimento a uma família e a uma cultura.

Ao adotarmos esse conceito de língua assumimos a responsabilidade de preparar os alunos para se expressarem, atuarem nos contextos sociais e criarem relações de pertencimento nessa língua-cultura.

Assim, nossas aulas devem explorar contextos reais de uso da língua, como escrever um bilhete para alguém, comentar ou fazer uma apresentação para os colegas sobre uma música. Essas são situações de uso social real porque existe um interlocutor e um propósito para a fala e para a escrita. Dessa forma, vamos trabalhando as formas convencionadas de expressão (escrever um bilhete, fazer um comentário, fazer uma apresentação) e criando um repertório desses tipos de textos para que os alunos os experimentem e se apoderem deles.

No entanto, lembremos de que no contexto do ensino das línguas de herança, a língua não se restringe somente ao propósito de expressão e atuação na sociedade, essa língua também amplifica o pertencimento familiar e cultural. Refiro-me aqui à ideia de que ao se apoderarem da língua-cultura, os aprendizes de herança estabelecem relações mais efetivas com seus familiares distantes. Além disso, uma língua de herança pode criar uma relação de identificação e de pertencimento cultural.

88759806Porém, a construção das identidades está ligada a questões complexas que não só o conhecimento da língua e da cultura garante. Uma identidade organiza-se pela construção de discursos de pertencimento que o aprendiz escolhe fazer quando se dá a conhecer e usar essa língua-cultura. Nós, professores e pais, propiciamos o caminho para que esses discursos sejam criados, mas é somente o aprendiz que pode escolher trilhá-lo ou não.

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