Histórias e brincadeiras de fazer medo

Por Mirela Estelles
Coluna Brincando

No post anterior, Brincar com as palavras, compartilhei uma das práticas educativas que tenho experimentado com as crianças na mediação cultural, cuja presença da palavra poética, vivenciada através da música tradicional da infância e dos versos populares nas exposições de arte, podem possibilitar a construção de novos sentidos, conexões e aproximações com o universo artístico de forma lúdica.

Gostaria de dar sequência e compartilhar alguns desdobramentos da ação poética, desta vez oferecendo o contato com histórias e brincadeiras tradicionais que, de alguma maneira, dialogam com as exposições na mediação com as crianças. Assim, seguirei com o relato de outras práticas realizadas na mostra do artista Oswaldo Goeldi, Sombria Luz, exibida no MAM-SP em 2012.

 Oswaldo Goeldi , Rua molhada s.d Xilogravura
Oswaldo Goeldi , Rua molhada s.d Xilogravura

Goeldi foi um grande gravurista brasileiro que apresenta em sua obra um mundo sombrio, subterrâneo, desabitado e assustador, dando luz ao que existe no seu imaginário com forte teor expressionista – casas vazias, abandonadas, cidades fantasma, homens fantasma, caveiras, grandes árvores, mistério, medo, suspense, vazio, sombra e luz.

Como apresentar para as crianças este mundo goeldiano, sombrio e mal-assombrado? Será que este mundo é tão distante assim delas? Será que as crianças em suas brincadeiras não vivenciam aspectos presentes neste universo?

Cada assunto a ser mediado com as crianças traz um novo desafio. Para cada contexto, pesquiso possibilidades de histórias e brincadeiras que possam traçar relações diversas com as exposições do museu, incentivando outras percepções e interpretações sobre os assuntos abordados pelos artistas em um percurso lúdico. Neste caso, as histórias e brincadeiras de “fazer medo” vieram à tona!

Como fonte de pesquisa, recorri aos contos de Luís da Câmara Cascudo, grande folclorista do Brasil, que classificou os contos tradicionais brasileiros em doze grupos, sendo um deles o do “demônio logrado”. Segundo Cascudo, sob esse título, foram reunidos todos os contos ou disputas em versos em que o Demônio intervém, perde a aposta e é derrotado.

No livro, O violino cigano e outros contos de mulheres sábias, Regina Machado reconta algumas histórias que trazem esta classificação: o conto irlandês Carvões para lareira do diabo e o conto árabe O Gênio do poço.

Outra referência que fez parte da pesquisa foi o livro O ofício do contador de histórias, de Gislayne Avelar Matos e Inno Sorsy, que, além de reunir diversas histórias classificadas como contos do demônio logrado , dos quais participam: Negócios com o Diabo, Os contos da morte, Pão de queijo para o velório, A sabedoria dos cemitérios, entre outros, também traz outra classificação: contos de assombração e contos de fazer medo, onde encontrei a história de tradição oral A casa mal-assombrada.

Qual criança que não gosta de se assustar? Quem não se lembra, na infância, do prazer em ouvir histórias assustadoras de baixo do lençol na noite escura?

A maior finalidade dos contos de assombração e dos contos de fazer medo é, sem dúvida alguma, abrir-nos portas a mundos sombrios, sobrenaturais. E, em seguida, exorcizar-nos das criaturas estranhas que nos assombram e ameaçam. São uma riqueza, e as crianças sabem muito bem disso, pois adoram se assustar com eles.” (MATOS & SORSY, I., 2007 : 102)

Assim, a primeira história de tradição oral, escolhida para ser contada na visita com as crianças, foi A casa mal-assombrada, título, inclusive, de uma das obras.

A partir dela e da observação de outras gravuras, eu instigava as crianças a trazerem o seu próprio repertório de brincadeiras que se relacionavam com a temática do artista. Brincando, as crianças cantavam e se divertiam.

Seguem duas das brincadeiras que permearam as visitas, Fui no cemitério e Dim dim castelo.

“Fui no cemitério, tério tério, tério
Era meia noite, noite, noite, noite
Vi uma caveira, veira, veira, veira
Era vagabunda, bunda, bunda, bunda
Falta de respeito, peito, peito, peito
Quem se mexer vai virar um esqueleto”

(Nesta versão, as crianças cantavam, e, após a melodia, brincavam de estátua, cujas figuras retratavam tal universo fantasmagórico. Ganhava quem se mexesse por último. Ouça, aqui.

“Dim, dim castelo mal-assombrado,
xixi de rato pra todo lado,
a princesinha tão bonitinha,
viu um ratinho e desmaiou,
AHHHHHHH!!!!!!”

(Esta é uma brincadeira de mão geralmente feita em dupla. No final, os dois participantes devem estar atentos, pois uma das crianças desmaia e a outra precisa segurar, sem combinação prévia)

Por algum tempo, os conteúdos, tanto dos contos de fazer medo, quanto das brincadeiras registradas aqui, foram vistos com maus olhos, considerados impróprios para crianças. Hoje, a partir de diversas discussões e estudos, já é possível considerar sua importância, pois nas brincadeiras e narrativas a criança pode entrar em contato com seus medos e conflitos, dando-lhes assim, novos significados e sentidos.

Sem estas fantasias, a criança não consegue conhecer seu monstro melhor, nem recebe sugestões sobre a forma de conseguir controlá-lo. Em consequência, fica impotente face às suas piores ansiedades – muito mais do que se tivesse ouvido contos de fadas que dão forma e corpo a estas ansiedades e mostram também os meios de vencer estes monstros. Se nosso medo de ser devorado toma forma tangível de uma bruxa, podemos nos livrar dele queimando a bruxa no fogão. Mas estas considerações não ocorrem aos que baniram os contos de fadas.” (BETTELHEIM, 1980 : 151)

Convido vocês, então, a explorarem também brincadeiras e histórias de fazer medo!

Referências bibliografias:
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fada; tradução de Arlete Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.
MATOS, Gislayne Avelar. O ofício do contador de histórias: perguntas e respostas, exercícios práticos e um repertório para encantar / Gislayne Avelar Matos e Inno Sorsy. São Paulo: Martins Fontes, 2007
O violino cigano e outros contos de mulheres sábias / compilação e reescrita Regina Machado; São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Para saber mais sobre o artista Oswaldo Goeldi, clique aqui.

Outras brincadeiras da cultura tradicional você pode encontrar, aqui, aqui e aqui.

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