Uma árvore, muitas sementes

Por Ivian Destro
Coluna Educação Bilíngue

No texto anterior, apresentei a história de Mariana, uma brasileira recém chegada aos EUA, que me procurou para conversarmos sobre como incentivar o uso da língua e a composição de uma identidade brasileira em sua filha. Neste texto, vou contar a história da escola Ipê Amarelinho, organizada por Guilhermina, uma brasileira que vive na Inglaterra, e que me procurou para compartilhar uma angústia: organizamos aulas de português em minha região, ela se iniciarão no próximo sábado, o que eu faço agora?

Primeiramente, explicito aqui meu respeito e aplausos a todas as pessoas que iniciam reuniões informais para conversar sobre o bilinguismo dentro de casa. Em todo o mundo, observo pessoas organizando encontros em suas comunidades para compartilhar angústias sobre o que fazer quando se nota a perda linguística de seus filhos, para trocarem ideias sobre como criar um sentimento de pertencimento à cultura e à língua portuguesa entre falantes de herança, etc. Geralmente, essas pessoas tornam-se líderes comunitários e ajudam não apenas sua própria família a ser mais consciente sobre as escolhas linguísticas, mas toda uma comunidade que vive ao seu redor.

Quando Guilhermina me procurou, contou a trajetória de formação da Ipê Amarelinho (nome mais lindo!) que oferece aulas de português aos sábados no salão de uma igreja. Entre várias reuniões e conversas com pessoas diferentes, um grupo de quatro mães, duas brasileiras e 2 portuguesas, estabeleceram objetivos comuns e organizaram o que, nós, pesquisadores, chamamos de uma “escola comunitária de língua de herança”.

Essas escolas são organizações comunitárias que oferecem ensino e aprendizado sobre uma língua-cultura de herança por meio de encontros regulares, aos fins de semana, como atividades extras curriculares durante a semana, ou como atividades durante as férias. Essas aulas acolhem filhos ou netos de imigrantes.

O trabalho de educar famílias e organizar uma escola comunitária de língua de herança é voluntário e demandante. No entanto, é apenas o início de uma história. Guilhermina compartilhou comigo sua angústia: e agora, as crianças virão no próximo sábado, o que fazer?

Contar uma história, ler um livro, cantar o ABC, dançar e cantar Marcha Soldado, preencher folhas com sílabas, o que escolher dentro de um universo tão grande quanto o da cultura em língua portuguesa? O que escolher para plantar uma semente da língua-cultura de herança dentro dessas crianças?

+ Você conhece o nosso canal no Youtube, cheio de recursos para suas aulas?

Em conversas por Skype com Guilhermina e com outras iniciativas como as dela, procuramos refletir sobre quem são esses alunos, sobre quais são as situações reais da vida cotidiana em que essas crianças utilizam a língua portuguesa. Essa é a primeira pergunta que pais e professores podem se fazer, porque além de escolher músicas e histórias encantadoras para as aulas, acredito que esses aprendizes necessitam se preparar para os momentos em que precisam usar a língua com sua família.

+ Você conhece o programa de formação para educadores de PLH da Brasil em Mente?

É muito importante trazer para a sala de aula brincadeiras que representem de forma lúdica o que as crianças necessitam para se tornarem independentes em suas produções linguísticas. Por exemplo, eu observei que esses aprendizes falam com seus avós, tios e primos distantes. Por isso, prestei atenção no que os avós perguntam e no que as crianças querem contar a eles.

A partir dessas observações eu criei jogos para que os pequenos se sintam independentes em uma conversa. É muito importante que o objetivo central das aulas seja as crianças produzirem linguagem. Por exemplo, em um trabalho com a rotina, inventamos que o Saci visitou a cada de cada um dos alunos e coletei as histórias que eles inventaram sobre o personagem do folclore brasileiro para produzirmos um livro artesanal sobre a rotina.

Além de se encantarem com o personagem lendário, o objetivo é que eles falem, compreendam, leiam e escrevam histórias para que se sintam cada vez mais confortáveis ao utilizarem a língua de herança.

Iniciativas como a da Guilhermina estão nascendo em todo o mundo e tenho muito orgulho delas e das sementes que estão plantando em suas comunidades. Muitas compartilham como as crianças mostram-se empolgadas e participativas nos encontros e como os pais notam rapidamente uma mudança da criança em sua relação com a língua de herança. Antes evitavam, não queriam ler livros ou contar histórias em português, agora pedem para que os pais leiam, que os avós contem histórias.

Estou muito curiosa para conhecer as flores e os frutos de todas essas árvores que as comunidades em língua portuguesa estão plantando pelo mundo. Compartilhe a sua história também!

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