A rabanada amada

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Por Rita Turner
Coluna Culinariando

Eu duvido que o criador da rabanada – quem quer que ele tenha sido – pudesse imaginar que uma ideia tão simples teria uma vida tão longa. Como acontece com muitos pratos, é difícil detectar a sua origem, mas sabemos que talvez o documento mais antigo que se tem como referência data da Roma antiga (trata-se do “De re coquinaria”, de autoria do gastrônomo Marcus Gavius Apicius, 25 a.C. – 37 d.C.).

A invenção da rabanada veio muito possivelmente da velha tabelinha “criatividade para driblar a necessidade”. Para não perder o pão que já ficou velho e duro, o jeito foi amolecê-lo no leite (ou outro líquido) e depois fritá-lo para dar uma textura mais prazerosa, além de prouver mais calorias. Um pouco de açúcar e por que não, um toque de canela e o pão velho agora ganha vida nova.

Espalhada pelo mundo, a rabanada é conhecida e utilizada de várias formas. Para o francês, “Pain Perdu” (pão perdido), para o espanhol, “Torrijas”, em alemão vira “Arme Ritter” (cavaleiro pobre). Cada um com a sua versão.

Na Hungria, conta a minha sogra, a rabanada é comida salgada, e não doce. Como você já deve saber, foram os portugueses que trouxeram as rabanadas – ou fatias douradas, ou ainda fatias de paridas – para terras brasileiras.

 

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+ Leia também: Panetone, abrindo a temporada de festas

A rabanada e o Natal
A prática de reutilizar alimentos é milenar e vem da necessidade humana, muito antes da palavra sustentabilidade entrar para o dicionário. Na cozinha da reutilização, o arroz velho vira bolinho frito, o feijão vira sopa, a carcassa vira caldo para sopas e o pão velho vira rabanada (entre outras delícias).

O fato de um prato tão simples como a rabanada ter entrado para mesa de Natal é que é para mim, um paradoxo muito interessante. Numa época em que as pessoas se esforçam para comprar ingredientes especias, muitas vezes fazendo economia para comprar aquela cereja importada, ou aquele vinho especial, lá está ela, a rabanada, feita com o pão de ontem (ou anteontem).

Para tentar entender esse fenômeno, talvez seja preciso olhar a rabanada pela ótica cristã. A ideia de reusar o pão velho, evitando o desperdício, é, em sí, um ato cristão, já que o pão é considerado um alimento sagrado na Bíblia (minha avó beijava todo pedaço de pão que ia para o lixo).

Rabanada millenial
A rabanada atual tem várias versões. Tem rabanada light, integral, assada, frita, sem lactose, sem ovo, ética, hiperlocal e sem crueldade. Tem até rabanada sem glúten. Rabanada sem glúten??? Pode isso, Arnaldo? Pode, Galvão. Afinal vivemos num mundo livre e em constante mutação. É a rabanada millennial!

Como bom brasileiros, criamos também a rabanada com leite condensado, é claro. Afinal, temos um carinho quase que incondicional para com o leite da latinha, e não perdemos uma chance de incluí-lo na nossa mesa.

No Brasil muitas padarias vendem pão de rabanada durante a época das festas. Na minha opinião, isso nada mais é do que uma jogada de marketing, afinal, a rabanada existe há muito tempo sem o tal pão especial. Aliás, ela foi criada justamente para evitar o desperdício, reutilizando o pão velho e duro de uma outra maneira.

O tal pão para rabanada é um pão maçudo que foi perfurado para absorver melhor os ingredientes líquidos e evitar que as fatias fiquem secas. Você pode fazer o mesmo em casa, basta furar o pão antes de fatiar, com um palito, espetinho ou garfo.

Seja qual for a sua preferência, a rabanada é um daqueles pratos que é gostoso de preparar em família, as crianças podem ajudar (cuidando com a fritura, é claro), e se vier acompanhado de um pouquinho de história, melhor ainda! Então, dá próxima vez que tiver um pãozinho velho dando bandeira na sua casa, convide os brasileirinhos para uma tarde de rabanadas.

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Conte as suas histórias de rabanadas, sejam elas memórias de ceias de Natal ou simplesmente de tardes de infância, comendo rabanada na mesa da cozinha. Ao fazer isso, espero, você vai por sua vez, estar criando memórias que serão contadas e revividas também!

Receita básica
A rabanada é extremamente adaptável, praticamente dispensa receita, o que segue então não é uma receita propriamente dita (a web está repleta delas), mas sim, os diferentes estágios do preparo desse prato, e algumas de suas variações.

• Comece com um pão velho, de preferência já duro. Pode ser de qualquer tamanho e forma, desde que possa ser fatiado numa espessura relativamente grossa (uns 2cm).

• Mergulhe as fatias de pão em leite, que pode ser de vaca ou vegetal (soja, amêndoa, coco) ou até achocolatado. Se quiser, adoçe o leite com leite e acrescente baunilha ou use metade leite e metade leite condensado. Esse passo é jogo rápido, ou as fatias vão desmanchar.

• Passe então as fatias de pão em ovos batidos, e, a seguir, frite em óleo quente até dourar dos dois lados. É bom testar a temperatura do óleo com uma fatia antes de colocar várias. Muito quente e a rabanada vai queimar, muito frio e elas vão absorber muita gordura, ficando encharcadas de óleo. As rabanadas também podem ser assadas, nesse caso, bata o leite e ovos juntos, passe as fatias na mistura e leve ao forno numa assadeira até dourar.

• Passe no açúcar com canela e bom apetite!
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Rita TurnerRita Turner é correspondente de diversos blogs de culinária. Simpatizante do grande chef Alex Atala que costuma dizer que a comida é a maior rede social do mundo, Rita acredita na influência da cozinha na formação da identidade e a vê como um agente fundamental na preservação da cultura de um povo.

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe sempre com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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2 comentários em “A rabanada amada

  1. Estou adorando essa sessão aqui no blog – muito legal! Eu sou de SP e nunca comemos rabanada do Natal – nem minha família nem as famílias dos meus amigos. Em compensação, conheço pessoas no Rio que amam comer rabanada no Natal – será que é diferente mesmo nos diversos estados do Brasil?!

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