Perfil e Opinião, Felicia

Por Felicia
Perfil e Opinião

11752494_446817972165241_4736927699723634009_nHoje o Perfil e Opinião foi escrito por mim… Digo por mim porque seria meio estranho falar em terceira pessoa.

 

Sou fundadora da Brasil em Mente e hoje diretora educacional da organização e editora do conteúdo deste blog. Sou educadora, apaixonada pela pesquisa em relação à educação bilíngue e multicultural, pelo contexto das famílias multiculturais, pela língua portuguesa e pela cultura do Brasil. Toda essa paixão tem composto a minha vida nos últimos (quase) 10 anos morando em Nova Iorque.

A Brasil em Mente foi criada em 2009 e sempre teve como ideia central trazer o Brasil à mente de quem mora no exterior. Daí o nome da organização. Esse desejo nasceu a partir da observação frequente de brasileiros e brasileiras convenientemente “esquecerem-se” de onde vieram. Aliás, essa é uma das causas de o português não ser passado adiante, para as gerações que nascem e crescem fora do Brasil.

Parece fácil deixar para trás o “onde” nascemos e crescemos quando moramos no exterior. Tudo é novidade, tudo é lindo, certinho, organizado. Tuuuudo funciona maravilhosamente bem, até o visto de turista expirar, no passaporte ou na cabeça.

Como em todo lugar do mundo, inclusive no Brasil, aqui fora é também cheio de dificuldades, desafios, particularidades… Não demora muito e, para o observador mais atento, é possível enxergar que todo mundo, toda cultura e todo país têm coisas feias, fora do lugar e sem solução.

Essa noção é essencial aqui fora para não perdermos de vista quem fomos, quem somos e quem podemos ser. E podemos mesmo. Podemos ser mais do que só brasileiros, mas devemos ser sempre justos.

Justiça seja feita, no Brasil somos injustos. Aprendemos a ser assim todos os dias quando nos aculturamos no jeitinho brasileiro de ser. Me refiro ao jeito que temos de desapreciar, desconhecer, desconsertar e nos desiludirmos com o que é “nosso”.

Foi quase o que aconteceu com um menino brasileiro – a produção O menino e o Mundo (assista o trailer, aqui). Um animação de Alê Abreu (assista uma entrevista que a BEM fez com ele, aqui), teve sua estreia no Brasil em janeiro de 2014. Na ocasião do lançamento, faltou-lhe a atenção merecida. Poucas pessoas foram aos cinemas e a obra acabou ficando desconhecida… mas por pouco tempo.

Com a mesma garra que o personagem principal tem, o filme foi ao mundo e aqui fora os críticos se apaixonaram por sua “beleza sem filtros”, como disse um crítico do prestigioso The New York Times (veja a publicação, aqui).

Nicolas Rapould diz que o filme “revela a exuberância de uma criança em meio às duras realidades do Brasil hoje. É ao mesmo tempo a melhor animação infantil do ano desde o Divertidamente (em inglês, “Inside Out”) — você pode chamá-lo de “Outside In” (um trocadilho com o original) — e, inesperadamente, uma mostra mais estimulante das dormentes metrópoles modernas do que a feita em documentários sentimentalistas”.

Em entrevista ao site G1 (veja a publicação, aqui), Alê Abreu disse que quem tem força é o menino. “O menino… tem uma força – e é uma força que é do filme, não é de marketing, de promoção, de nada.”

Essa força é o traço brasileiro mais aparente nesse que já é tido como um sério concorrente das animações “maiores”. Um traço que não é só brasileiro, mas é nosso também.

E é aí que está pelo menos uma das coisas que queremos trazer à mente das pessoas que vivem fora do Brasil: o brasileiro é forte, corajoso, criativo, inovador. Tem as mesmas capacidades em meio à tanta desigualdade que outros desperdiçam em meio a tanta homogeneidade.

O Brasil tem beleza em sua cultura, sua música, suas manifestações. Uma beleza tamanha que com um motivo melódico associado a traços simples de giz de cera, conquistou uma indicação ao Oscar® sem a presença de atores Globais.

A crítica tem associado essa relação entre Menino e o Mundo e Divertidamente à de Davi e Golias. Mas o Menino é grande por dentro. Alê Abreu, apesar de parecer sentir-se privilegiado ao lado das outras indicações, faz uma crítica muito válida sobre seu maior rival.

“Mostrar a Alegria como uma menininha loirinha bonitinha e a Tristeza como uma gordinha de óculos – isso não é legal”, comenta Alê Abreu em entrevista ao canal G1.

E isso não é, além da pérola que o filme é como um todo, motivo de sobra para se orgulhar? O cara além de produzir uma delicadeza sobre a infância e o contexto da América Latina, aponta uma das formas pelas quais estamos nos deixando aculturar com o surreal – o de que ser loiro, ser “de fora” é bonito e traz alegria, sucesso, vantagens; ser do jeito que eu sou (do Brasil ou de qualquer lugar que não seja “loiro”) é ser triste, desafiante, traz fracasso e desvantagens.

Para mim, e acredito que muitos educadores me apoiem, só essa observação já merece o Oscar®.

Ver O Menino e o Mundo é uma excelente estratégia para construir o que, nós que defendemos o movimento em prol do português como língua de herança, chamamos de senso de pertencimento. E de maneira positiva. Não só o personagem é um cara forte, mas a própria produção do filme foi forte e persistente. Esse é um valor que precisamos apreciar, conhecer e promover em nossos brasileirinhos e em nós mesmos.

Se alguns pensam que há motivos de sobra para se desorgulhar do Brasil (sim, outra coisa que você deveria saber sobre mim é que adoro um neologismo), esse filme é uma prova de que muito anda mal por lá, mas muito anda sendo feito de forma a ser premiada e celebrada.

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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