Crianças na cozinha

Por Rita Runer
Coluna Culinariando

Esse post aborda um assunto importante – cozinhar com as nossas crianças – e para isso, vamos falar um pouco sobre o livro Sou Chef! I am a Chef! da editora BEM.

Para quem ainda não conhece, o livro traz receitas em português e em inglês que são fáceis de fazer, com alguma ajudinha, é claro. Cada receita vem com fotos dos ingredientes, o que ajuda a criança a reconhecê-los em casa, e também traz histórias sobre os diferentes pratos. Na capa, o cozinheiro-mirim mais animado que já se viu, uma fofura só (minha filha adora olhar a capa do livro).

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Eu consigo pensar em vários bons motivos para levar a gurizada para cozinhar com você. Mas eu sei, por experiência própria, que fazê-lo não é nada fácil; pelo contrário, é mais difícil do que preparar a janta sozinha. Exige tempo, paciência e uma boa dose de bom humor.

As ceias na casa da vó eram épicas, com inúmeros pratos doces e salgados, um verdadeiro banquete. Certa vez, quando eu era criança, quis ajudar minha avó a preparar a ceia de Natal. Eu passei o dia ajudando minha avó e minha tia na cozinha do apartamento onde moravam. Aquela ceia teve todos os pratos esperados, da lasanha de frango com molho branco ao pavê de chocolate com amendoim.

Eu me lembro da imensa sensação de orgulho que senti naquele dia ao ver os pratos que eu havia ajudado a criar formando a mesa da refeição mais esperada do ano. Me senti grande, importante e muito feliz. Foi uma experiência única para mim.

Em casa, volta e meia inventava de aprender algum prato. Me lembro de um que a nossa cozinheira, Iracema, me ensinou a fazer com camadas de peixe, batata e tomates, tudo cozido na mesma panela, que depois ia direto à mesa. Porém, não pense que o valor da experiência na cozinha é diretamente proporcional ao cacife da receita.

Pelo contrário, há muita riqueza na simplicidade. Com a minha mãe, aprendi a amassar sardinha com maionese para rechear sanduíches de pão de forma que iam para a geladeira numa travessa coberta com um pano de prato úmido, que era para eles ficarem bem macios e não ressecarem.

O que a criança leva disso tudo é a sensação de acolhimento e de inclusão num universo onde, geralmente, só os adultos passeiam.

Imagine um lugar onde a criança sente-se segura e à vontade para ir e vir como deseja, para ser autêntica e expressar-se como ela quer. Nesse lugar não existem medos ou expectativas. Esse lugar é a casa, ou o lar, e nesse contexto, a cozinha é um laboratório de experiências diversas e únicas. Então, aqui vai minha listinha de “lições tiradas da cozinha” – que vão além do ponto certo do brigadeiro.

Ciência: Por que é que precisa colocar fermento para o bolo crescer? Aliás, o que é fermento em pó? Tem fermento que não é em pó? Como é que funciona o microondas? Aliás, o que são microondas, mamãe, ondinhas pequenas? Como assim? Por que que a gelatina endurece na geladeira? E aí, entrou numa saia justa? Que bom, pesquise e responda as perguntas mais simples, porém nunca questionadas por você, na sua cabeça prática e sem graça de adulto.

Geografia e história: Receitas como guacamole (pág.57) e raita indiana (pág.63) são ótimas oportunidades de apresentar novas culturas através dos sabores e histórias de diferentes povos e lugares. Leve o mapa ou o globo para a cozinha e mostre para os pequenos de onde vem a banana split (pág.21). Que língua se fala nesses lugares? Como será o clima de lá? Em que região do globo se situa? Isso dá conversa à beça.

 

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Paciência: A paciência é uma qualidade tão importante na vida, porém, que nos chega quase sempre tão tarde. Do escolher o feijão à espera pelo crescer do bolo no forno, a cozinha exige paciência. O cozinheiro aprende a respeitar e valorizar os limites do tempo. E você, como adulto, dividindo a cozinha com uma criança, com certeza vai testar os seus próprios limites de paciência. Pontos para os dois times.

Persistência: Uma coisa é certa: nem tudo que você e seu brasileirinho decidirem fazer na cozinha vai dar certo. Esse tipo de situação pode nos ensinar muito, afinal, esta é uma ótima maneira de trabalhar o fracasso – inevitável fenômeno de quem vive. Lembre-se disso na próxima vez que o bolo embatumar.

Vocabulário: Esse é óbvio, mas importante notar. O mundo dentro da cozinha nos leva a buscar novos modos de explicar o que, para nós, não requer mais explicação. Nos força a pensar em nomes que podem não ser usados cotidianamente. Esse livro é duplamente interessante nesse quesito, pois, já vem em dois idiomas – inglês e português – sendo útil tanto para brasileirinhos morando dentro, quanto fora do Brasil.

Cidadania: Esse talvez não seja tão óbvio. Vamos fazer de conta que você está fazendo o almoço para a sua família. O papai não gosta de vinagre, então a salada é temperada à mesa. A irmã mais velha virou vegetariana, por isso vamos fazer uma lasanha de queijo para ela. O vovô não gosta de peru, por isso assamos um franguinho também. Ah, e a titia acabou de descobrir que tem diabetes, logo, esse ano vai ter sobremesa diet também. O que esse cenário pode ensinar à criança que está ajudando a preparar esse almoço? Inclusão, compreensão, flexibilidade e aceitação das diferenças. Isso é uma aula de cidadania, de boa vontade, de autruismo.

Cozinhar significa independência. Cozinhar para outros é um ato de amor, nos força a pensar no próximo como pensamos em nós mesmos. É empatia pura.

Convenceu-se? Então passe na lojinha da BEM, pegue já a sua cópia do Sou Chef! e  divirta-se na cozinha com seus brasileirinhos. O mundo agradece.

 

 

Rita TurnerRita Turner é correspondente de diversos blogs de culinária. Simpatizante do grande chef Alex Atala que costuma dizer que a comida é a maior rede social do mundo, Rita acredita na influência da cozinha na formação da identidade e a vê como um agente fundamental na preservação da cultura de um povo.

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe sempre com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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