Histórias para ver e ouvir

Por Mirela Estelles
Coluna Brincando

Fevereiro foi um mês cheio de comemorações pelos 7 anos da BEM, iniciativa que promove o português como língua de herança para os brasileirinhos que moram no exterior. Durante estes anos, a fundadora da Brasil em Mente, Felicia Jennings-Winterle, idealizou e realizou diversas ações que conectaram pessoas do mundo todo com o mesmo desejo de promover, refletir e discutir sobre a importância do desenvolvimento do bilinguismo e a conexão afetiva e efetiva com o português como língua de herança.

No meu primeiro contato com a Felicia, fiquei muito entusiasmada com a iniciativa ao perceber que, mesmo morando no Brasil, minha prática como educadora e contadora de histórias se afinizavam e dialogavam com os projetos da BEM no sentido da promoção da cultura tradicional da infância, tendo como base as narrativas, as brincadeiras e a valorização da cultura da criança.

Assim, em nosso segundo encontro, fizemos um percurso na exposição da artista Rivane Neuenschwander, onde, além de apresentar a exposição em cartaz no Museu de Arte Moderna, contei um pouco sobre o programa voltado para as crianças com seus acompanhantes – Família MAM. Veja, aqui.

Por isso hoje, nesta breve retrospectiva, gostaria de compartilhar mais uma das brincadeiras que tenho gostado muito de brincar por aí, e que de alguma maneira, se relaciona com questões importantes suscitadas também pela BEM.

A partir da brincadeira de contar uma história em duas línguas ao mesmo tempo, surgiu o projeto Histórias para ver e ouvir! Sua diretriz principal é integrar surdos e ouvintes em uma experiência direta com a arte de contar histórias, onde as duas línguas oficiais do Brasil, o português e a libras (língua brasileira de sinais), se fundem, e, suas potencialidades se evidenciam.

A pesquisa e concepção do projeto começou no Museu de Arte Moderna de São Paulo em setembro de 2011, em ocasião da Semana Sinais na Arte, que comemora o dia do surdo. Até hoje as narrações bilíngues fazem parte da programação do museu.

Na preparação de cada história, para garantir a relação harmônica entre as línguas, sem prejudicar a estrutura das mesmas, consideramos importante alguns aspectos como:

– Uso de dois corpos (das duas narradoras) para ampliação de um sinal, que acontece com a extensão ou contenção do movimento e do tempo;

– Composição do sinal levando em conta o movimento e sua direção, o lugar no corpo ou no espaço, a expressão e configuração de mão, que gera a compreensão do significado e possibilita novas relações poéticas com o uso dos sinais nos diferentes contextos da narrativa;

– Repetição: momento de construção da imagem pela visualidade da língua de sinais, tanto para o surdo quanto para o ouvinte;

-Narração x Dramatização: preocupação em narrar a história e não dramatizá-la. Uso de recursos como objetos sonoros e visuais sem excesso ou exageros;

– Harmonia e Ritmo: não há hierarquia entre as línguas; cada uma é respeitada em sua estrutura particular e poética, o que exige das narradoras uma grande sintonia. A história existe como norteadora do tempo-espaço de cada língua – relação (ritmo-cadência-fluidez);

– Alternância: A alternância entre quem fala e quem sinaliza fortalece a equidade entre as línguas e busca jogar com o olhar do espectador, criando momentos de integração total entre as duas línguas. Esta integração pode acontecer entre a dupla ou entre as línguas em um único corpo, quando a mesma pessoa fala e sinaliza, geralmente por um período curto, para garantir a estrutura das línguas. Percebemos que na maioria das vezes a alternância funciona melhor nos diálogos;

– Expressões poéticas: Criação de expressões poéticas que transmitam visualmente a poesia da palavra oral. Trechos de narrativas poéticas são os mais trabalhados durante o processo de construção da história, pois são eles que dão riqueza e profundidade à narração, estimulando a imaginação e a capacidade de abstração que pode ser ampliada ao proporcionar o aumento de vocabulário e do universo imagético dos surdos.

A experiência de ver e ouvir histórias proporciona o contato e conhecimento de uma nova língua para o público ouvinte e o contato dos surdos com a arte da narrativa de forma direta, possibilitando a fruição estética e interação entre todos. Ao cruzarmos as duas línguas, reforçamos a potencialidade de cada uma com diferentes características que se somam; a libras, por sua visualidade expressiva, e o português por sua poesia metafórica. Assim, ampliamos as possibilidades de leitura e interpretação imagética da narrativa.

Esta brincadeira de contar uma história em duas línguas ao mesmo tempo, afinadas na integrativa confluência entre o gestual-visual e o oral-auditivo, denuncia que ambas se organizam a partir do mesmo campo simbólico relacionado a aquisição e sustentação da linguagem, que, por sua vez, para além de uma ferramenta de capacitação comunicativa, ordena toda a complexa estrutura da constituição subjetiva que está em jogo quando colocamos o fundamento da linguagem em perspectiva.

Fica aqui mais uma vez o convite para explorarmos aquilo que da linguagem encontramos oportunidade de brincar!

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

Um comentário em “Histórias para ver e ouvir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s