Lendo As crônicas da Norma

Por Cristina Marrero
Coluna Lendo

Durante o meu tempo na universidade eu tive a sorte de encontrar colegas apaixonados pela língua portuguesa. Fazíamos debates acalorados sobre o ensino de gramática, literatura e redação. O nosso sonho era que pelo menos uma boa parte dos alunos pudesse se apaixonar pelas palavras, pela estrutura, pela grafia. Mas, sobretudo, tentávamos entender o porquê da resistência ao português.

Uma das hipóteses era sobre a forma pela qual o conteúdo era transmitido. Ao olhar algum livro didático a impressão era que se estava tratando de um assunto desconectado do cotidiano. Ora, a língua é usada no dia-a-dia, nos discursos, como ferramenta de trabalho, de comunicação e de entretenimento. Então por que essa sensação de que estamos estudando um idioma que não é o nosso?

Muitas vezes os exemplos parecem fora de qualquer contexto. Aprender as regras é importante mas será que não há uma maneira mais leve de aprender, de perceber que todos os aqueles conceitos dos livros ja são usados quando falamos e escrevemos?

Já se passaram muitos anos desde que terminei a universidade, acredito que algumas coisas melhoraram, alguns dos meus colegas são professores no ensino fundamental e médio e, pelo que sei, são excelentes profissionais, tentando aos poucos mudar o que pode ser mudado, melhorando assim, o ensino de língua portuguesa. Há esperanças…

Por isso recebi com entusiasmo a Coleção Crônicas da Norma, da editora Houaiss, composta por três livros – Estilística, Sintaxe e Fonética e Morfologia. Livros que tentam mudar essa “cara ranzinza” do ensino do português. A autora é Blandina Franco, que já escreve livros infantis há algum tempo e tem uma parceria de sucesso com o ilustrador José Carlos Lollo. Blandina contou também com a consultoria do professor Gabriel Perissé.

As introduções dos três livros são muito agradáveis. A Sintaxe, a Estilística e a Fonética são apresentadas ao leitor de uma maneira leve e até divertida. Elas são as assistentes da Norma, que tem um trabalho exaustivo e é considerada por muitos como uma chata, coitada…

348-640394-0-5-cronicas-da-norma-estilisticaPessoalmente, simpatizei muito com a Estilística, “especialista em estilos, formas, maneiras de expressar sentimentos e coisas tanto escritas quanto faladas”. Neste livro algumas das tantas figuras de linguagem são apresentadas através de exemplos ou pequenas histórias.

Porém, um pequeno detalhe me deixou uma pulguinha atrás da orelha: alguns exemplos aparecem como histórias de mitologia e confesso que no caso da Símile eu tive que pesquisar para ter certeza que a historinha contada no livro não era parte de alguma lenda, já que no texto, Símile seria também um espírito feminino como as Sílfides que eu sei fazem parte de mitologias ocidentais. Isso me deixou um pouco ressabiada. Não sei se me agrada um texto que me confunde mais do que aclara.

imagem.aspxNo livro sobre Sintaxe a idéia é a mesma: apresentar, através de exemplos, alguns tópicos referentes ao título como agente da passiva, concordância, sujeito e objeto. Já no índice alguns pontos chamaram minha atenção; anadiplose, anáfora, eco, elipse e epizeuxe são figuras de linguagem, deveriam fazer parte do outro livro e aqui eu me baseio em Evanildo Bechara, que tantas vezes me ajudou a construir o meu humilde conhecimento de Gramática:
…diferem Estilística (que estuda a língua afetiva) e a Gramática (que trabalha no campo da língua intelectiva). Baralhá-las, de modo que a Estilística se ‘dissolva’ na Gramática, é pôr em perigo duas importantes disciplinas por confundir os seus objetos de estudo” (BECHARA, 2006).

A elipse e a anáfora poderiam estar dentro da Sintaxe porque elas estão dentro do grupo denomidado figuras de sintaxe ou construção, grupo este que modifica ou interfere em uma estrutura gramatical mas esse grupo é também um subgrupo das figuras de linguagem e no meu ponto de vista deveriam continuar apenas no estudo da Estilística.

348-640393-0-5-cronicas-da-norma-fonetica-e-morfologiaHá ainda um outro ponto que preciso trazer à tona: no livro sobre Fonética e Morfologia, o texto que ilustra o adjetivo traz a expressão surdo-mudo. Já há algum tempo em desuso por ser um conceito equivocado, surdo-mudo transmite a falsa idéia de que toda pessoa surda é muda.

No Portal de Educação encontro uma explicação simples que ajuda bastante: “A maioria das pessoas acaba concluindo que os surdos são também mudos pelo fato de não ouvirem. É verídica a ideia de que nós aprendemos a falar ouvindo, porém a expressão “mudo” tem relação com outro sentido. Pessoa muda é aquela que não faz uso do seu aparelho fonador (conjunto de órgãos e estruturas que produzem os sons de nossa fala) para fala ou qualquer outra manifestação vocal. O ponto é que a “mudez” não está relacionada com a “surdez”. São minoria os surdos que também são mudos. O fato é que qualquer surdo que tenha seu aparelho fonador em perfeito estado pode desenvolver a fala, claro que com certa dificuldade, e é preciso esforço e acompanhamento de um bom especialista”.

Voltando aos livros… eles podem servir como suporte para fixar determinados conceitos ou podem ser lidos para entreter. As ilustrações são coloridas e enriquecem o livro de forma pontual. A iniciativa da autora em tornar a Gramática mais acessível e prazerosa é uma amostra de que há ações concretas para mudar o que meus colegas e eu tanto discutíamos na universidade. As observações feitas acima são pessoais e baseadas nos meus conhecimentos e práticas tendo apenas o intuito de colaborar com o debate sobre o ensino da língua portuguesa.

 

logo_BIBPA Associe-se já à biblioteca infanto-juvenil brasileira Patricia Almeida. A BIBPA está a sua espera, com a coleção “Crônicas da Norma” e muitos outros da editora Callis. Você pode receber livros em sua casa, em todo os EUA.

 

10520087_10205119346253278_826309639437374543_nCristina ama literatura infantojuvenil e por isso, faz as aventuras, descobertas e fantasias chegarem até você através de dicas e reviews de livros. Cristina é diretora da Biblioteca Infanto-juvenil Patricia Almeida, um departamento da Brasil em Mente.

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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