Perfil e Opinião, Fernanda

Por Fernanda
Perfil e Opinião

Sou mineira e nos últimos anos morei na Inglaterra, Brasil, Suécia e, atualmente, estou na Alemanha.

Formada em Fisioterapia e Secretariado Executivo, dediquei-me profissionalmente a outra área: ensino de idiomas. Apaixonada pelo estudo de línguas (falo português, inglês, alemão e espanhol), fui professora de Inglês para Crianças e Português para Estrangeiros.

Integrante de uma família multicultural, mãe de três crianças trilíngues (gêmeas 12a, caçula 8a), voluntária na biblioteca de uma escola internacional e em busca de parcerias para a ampliação do conteúdo do brmais Foco no lado positivo do Brasil! (Website de Divulgação da Cultura Brasileira e Ações Sociais no Brasil!), inevitavelmente, cheguei até o BEM.

Foto Família

Faço parte da quinta turma de Formação para Educadores de PLH e, por sugestão da Felicia, compartilho com vocês uma experiência pessoal postada no fórum do Módulo 1 deste curso. Discutíamos sobre o bilinguismo e como balancearmos “oportunidade, insistência com amor e  liberdade de escolha” na educação de crianças multiculturais.

Vivi o 7X1 da Alemanha contra o Brasil na Alemanha, ao lado de um marido alemão e três filhas que se identificam como alemãs e brasileiras. Vocês não podem imaginar a situação…

Meu marido (bastante integrado à cultura brasileira) comemorou o primeiro gol, o segundo, o terceiro e, já no quarto gol, começou a ficar incomodado. De repente, ele já dizia: – “pelamordedeus” parem de fazer gol!

Eu que, sinceramente, não dou a mínima para futebol, fui ficando cada vez mais “murchinha”Piadinhas dos meus familiares e amigos alemães não paravam de chegar por sms. Minhas filhas, vestidas com as cores das duas seleções, concentravam-se mais nas minhas feições e nas do meu marido do que na tela da TV. Silêncio. Desconforto geral na arquibancada familiar.

Como nem tudo o que ruim dura para sempre, o juiz apitou o final do jogo. E eu só pensava nas minhas férias no Brasil que estavam por vir; queria estar no Brasil e mais nada.

Os dias de férias no Brasil chegaram. Assistiríamos aos jogos finais no Brasil, entre familiares e amigos brasileiros.

No dia da decisão Alemanha X Argentina, nós nos reunimos na casa de uma das minhas irmãs. Todos animados e alguns torcendo para Alemanha aos gritos de –  “Detone os argentinos, Alemanha!”.

Em algum momento, meu pai pergunta para uma das netas: “Como é que você fez no jogo Brasil X Alemanha?” E ela responde em voz baixa: “Olha, vô, eu só poderia sair ganhando, mas eu não sabia se eu tinha que ficar triste ou feliz na frente da mamãe; eu achei isso difícil. O papai não parecia tão feliz e eu não entendi.”

Ao ouvir aquilo, fiquei muito comovida. Aproveitei todos juntos naquele momento e falei: “Meninas, torçam livremente para quem vocês quiserem. Eu passei a maior parte da minha vida no Brasil e fui/sou muito feliz aqui. Outra coisa: eu não gostei de um monte de distorções divulgadas pela televisão alemã com respeito ao Brasil. Por isso, torço e torcerei primeiro pelo Brasil. Vocês têm outra experiência; aproveitem!”

Sabem o que aconteceu? Livres da culpa, elas pintaram suas carinhas e a de uma prima de vermelho e preto e, quando a Alemanha venceu, saíram gritando “Deutschland, Deutschland” (não comemoraram em português!).

Outro fato interessante: elas têm uma amiga argentina da qual gostam muito. Então falaram para a “galera” que estavam comemorando a vitória da Alemanha e não a derrota da Argentina…

Aquilo tudo para mim era quase que surreal, mas eu estava feliz por ter tido a chance de mostrar-lhes que eu sei perder, que a minha tristeza era muito além de um traumático placar e que elas têm todo o direito de enxergarem o mundo com os próprios olhos.

Eu me tornei híbrida. Meu marido se tornou híbrido. Minhas filhas foram híbridas desde o começo. Se no futuro elas se identificarão mais com a Alemanha, com o Brasil, com a cultura de um outro país ou se serão realmente multiculturais, é uma questão delas! Não posso tirar-lhes esse direito.

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

Um comentário em “Perfil e Opinião, Fernanda

  1. Querida Fernanda,

    Obrigada por compartilhar a sua experiência, dor e decisão! A família multicultural é uma oportunidade gigante e só há benefícios se enxergarmos tudo isso como uma grande janela para o aprendizado pessoal. Muitos têm, milhares querem mas poucos realmente sobrevivem aos obstáculos. Minha cultura não é a certa ou o errada….a sua cultura não é a certa ou a errada…..tudo são experiências adquiridas e cabe a nós ter o melhor de cada País. No Brasil bebe-se café e na Inglaterra chá!

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