Pensando na Páscoa

Por Rita Turner
Coluna Culinariando

A Páscoa é uma data cheia de simbolismos – os ovos, os coelhos, o peixe da sexta e o chocolate do domingo. Esse é um prato cheio de conteúdo para compartilharmos com nossos brasileirinhos. É também interessante falar sobre as diferenças entre as comemorações no Brasil e outras partes do mundo, ou até sobre as diferenças entre gerações. Da minha infância, lembro-me que minha mãe me contava sobre as procissões, sombrias e fascinantes aos olhos infantis, como um carnaval às avessas.

Páscoa à mesa
As datas especiais e suas comemorações são ótimas oportunidades para agregar a família e criar memórias afetivas ao redor da mesa. Como bons brasileiros, nossas comemorações são muitas vezes marcadas pela mesa farta e comida caprichada. Não poderia ser diferente com a Páscoa. Depois de uma longa quaresma, comemoramos a Sexta-feira Santa com muito bacalhau. No Domingo de Páscoa é aquele vale-tudo: da lasanha ao bobó (dependendo da região) e sempre acabando em chocolate.

Páscoa e paçoca
Minha avó sempre comia paçoca com banana na Sexta-feira Santa. Lembro-me bem dela na mesa da cozinha, prato fundo à mão, picando a banana e esfarelando a paçoca tipo rolha por cima. Na verdade, essa iguaria de paçoca com banana nasceu da necessidade de aumentar o teor protéico durante a quaresma. A banana entra como mistura para umedecer a paçoca que, uma vez esfarelada, vira uma farofa seca e de difícil trago.

O bacalhau especial
Comemos bacalhau na Páscoa por conta de nossa herança portuguesa. Poderia ser salmão, linguado, camarão ou qualquer outro peixe ou crustáceo. Mas o bacalhau está tão ligado às mesas brasileiras quanto os doces de convento. O preço salgado do bacalhau contribui para o seu status de comida especial. Esse peixe que vem salgado, depois é dessalgado, por fim cozido e temperado novamente com sal (ufa!), é sinônimo de Páscoa nas mesas brasileiras.

Espiritual ou não, ele está presente desde a Sexta-feira Santa até o domingo de Páscoa nas mais diversas formas – do bolinho à salada. Famílias italianas incorporam-no ao risoto e à lasanha, enquanto os mais tradicionais seguem as receitas portuguesas com batata e muito azeite. Quem procura algo mais moderno pode optar pela brandade servida com torradas. Depois disso, damos tchau ao bacalhau, até dezembro, quando ele volta à mesa para uma outra festa religiosa, o Natal.

E o chocolate?
Assim como o bacalhau, a resposta para essa charada (por que comemos chocolate na Páscoa?) é simples. Comemos chocolate porque amamos chocolate. O costume original era decorar ovos de verdade e presenteá-los na Páscoa, ao fim da quaresma (período em que não era consumido nenhum alimento animal, inclusive ovos). O chocolate veio como uma sacada de algum gênio pós-revolução industrial lá no mundo antigo. Esse visionário europeu percebeu antes de todo mundo que tudo na vida é melhor se coberto por uma camada de chocolate. O resto é história.

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Páscoa passadas e futuras
Hoje, longe do Brasil, minha Páscoa é muito diferente. Não tem procissão nem feriadão. Quase nada se parece com as minhas lembranças pascualinas de infância.

Uma das coisas que decidi fazer para me aproximar das minhas memórias foi confeccionar o meu próprio ovo de chocolate. É muito mais fácil do que se pensa. Basta derreter chocolate de boa qualidade e espalhar nos moldes (encontrados online), deixar esfriar na geladeira e desenformar. Uma pesquisa rapidinha na internet mostra mais detalhes do passo-a-passo necessário para os novatos. O legal disso é que temos total liberdade para criar o ovo que quisermos e ainda podemos personalizá-lo, atendendo aos gostos diversos da família. Já fiz com frutas secas misturadas ao chocolate, com nozes e castanhas e com sabor menta. O embrulho é opcional mas eu recomendo, afinal, a Páscoa é uma festa. Escolha o papel que quiser, ou use celofane, amarre com uma fita bem bonita e pronto!

O melhor de tudo isso é que se torna uma atividade em família. Enquanto fazem seu ovos de chocolate, você vai contando histórias das suas Páscoas passadas para seus brasileirinhos. Os rituais e comemorações, as comilanças em família, as brincadeiras com primos distantes, as reuniões na varanda, as procissões, as missas, as festas, os filmes antigos passados na Sessão da Tarde.

Tudo isso é Páscoa e tudo é memória.  As nossas lembranças tomam formato de histórias onde o passado e o presente vão se entrelaçando como uma eterna trança de Rapunzel que não acaba nunca, criando um novo fio de memória, novas histórias a serem contadas e re-lembradas por muitas e muitas outras Páscoas por vir.

 

 

Rita TurnerRita Turner é correspondente de diversos blogs de culinária. Simpatizante do grande chef Alex Atala que costuma dizer que a comida é a maior rede social do mundo, Rita acredita na influência da cozinha na formação da identidade e a vê como um agente fundamental na preservação da cultura de um povo.

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe sempre com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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