Kiddle e o problema da segurança nos sistemas de busca

Por Aline Frederico
Coluna High Tech

Esse é o primeiro post da coluna High-tech da Plataforma Brasileirinhos.
Grande parte dos brasileiros vivendo no exterior faz uso constante da tecnologia, seja pra manter contato com a família e amigos no Brasil ou trocar informações com outros brasileiros pelo mundo sobre como viver e educar Brasileirinhos fora do país.

Grande parte dos brasileirinhos já nasce fazendo chamadas por Skype e tem desde cedo a chamada “pegada digital”, estando presentes na internet por meio das mídias sociais e outros sites. Tendo isso em mente, esse espaço foi criado para conhecermos novidades tecnológicas voltadas aos Brasileirinhos e seus pais, discutirmos os aspectos positivos e negativos da tecnologia e trocar informações importantes sobre as melhores maneiras de utilizá-la.

O primeiro tópico é com certeza um motivo de preocupação frequente de toda mãe e todo pai na era digital: a segurança online. Como dar a crianças o acesso à internet e aos mecanismos de busca e ao mesmo tempo garantir que elas não caiam em páginas com conteúdo inapropriado?

Uma das propostas para lidar com esse problema são os mecanismos de busca voltados a crianças, como o recém-lançado Kiddle, que visa ter uma interface amigável para crianças e ainda protegê-las de sites com conteúdo inapropriado (outros exemplos são Safe Search Kids e KidRex). Diferentemente do que circulou em algumas notícias, o Kiddle não é uma ferramenta do Google, mas um mecanismo que usa a tecnologia do Google Custom Search e que permite a criação de mecanismos de busca utilizando critérios personalizados, assim como os outros exemplos acima.

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Segundo o site, o Kiddle possui editores que selecionam sites criados especificamente para crianças, sites para o público em geral com linguagem acessível ao pequeno leitor e ainda sites para o público em geral que são seguros mas possuem linguagem mais especializada. Os resultados de busca aparecem nessa ordem, com resultados 1 a 3 na primeira categoria, 4 a 7 na segunda e os demais na terceira categoria. Outros atributos do site são a presença de imagens no resultado da busca e uma fonte maior que a dos buscadores tradicionais. Finalmente o site não armazena informações pessoais dos usuários.

A intenção é boa, mas apesar do Kiddle responder a uma real necessidade de mais segurança para crianças nos sistemas de busca, uma análise mais profunda no sistema logo releva uma série de limitações técnicas e ideológicas. Em primeiro lugar, a língua central de busca é o inglês. Buscas em português podem até apresentar resultados, mas nos testes que realizei esses resultados eram pouco relevantes ao tema sendo pesquisado.

Por exemplo, numa busca pelos termos “canções de ninar”, apenas 6 resultados foram encontrados, e a maioria dos resultados vinham de um site de marca de brinquedos infantis, mostrando o catálogo de produtos que tocam canções de ninar. Do meu ponto de vista, aqui o tiro saiu pela culatra, porque ao guiar uma criança para um site supostamente seguro, o sistema acabou a direcionando a um site comercial.

Isso nos leva a outro problema do site: a publicidade.

Ainda que os resultados da busca no Kiddle sejam supostamente seguros, na barra lateral direita aparecem anúncios de outros sites. Na busca por “canções de ninar”, um dos anúncios que apareceram era para a página de venda de CDs do site Gumtree, um site popular na Inglaterra similar a eBay e Craigslist. Ainda que em primeira instância o Gumtree não seja um site de conteúdo inadequado, possui um nível de segurança bastante questionável uma vez que recebe milhares de posts diários dos usuários anônimos, além de ser um site comercial.

Um dos aspectos que mais chama a atenção no Kiddle é a falta de uma definição clara do que são termos “inadequados”. Palavras de baixo calão, de cunho sexual e relacionadas a violência, como “assassinato” e “arma” estão entre as bloqueadas. No lançamento do site, segundos diversas fontes (veja mais em Independent e Betanews), a resposta a buscas por termos proibidos era um “Oops, parece que sua pesquisa contém palavras inadequadas (bad words). Por favor, tente novamente.”, mas essa mensagem foi alterada e no momento o site responde com um simples “Oops, tente novamente!”.

Como em qualquer caso de censura, a questão que não quer calar é quem decide o que é ou não uma palavra inadequada e quais valores e crenças estão por traz dessas decisões. Quem faz parte dessa “comissão editorial”, que decide que termos e que sites são adequados? Há professores, psicólogos especialista em educação e infância? O site não traz nenhuma informação a respeito.

Na fase inicial do site, por exemplo, termos como “homossexual” estavam nessa categoria “bad words”, o que indica valores conservadores da comissão editorial. Eu acredito que essa é uma das falhas mais importantes no sistema, afinal é exatamente quando uma criança pesquisa termos ambíguos que podem levar a sites inadequados que queremos que o sistema responda com fontes que tratem do tema com conteúdo e linguagem apropriados aos pequenos.

O Kiddle traz à tona a problemática questão da censura e nos faz refletir sobre como queremos preparar as crianças para lidar com as informações no mundo virtual. Como a análise acima mostra, estamos longe de ter um sistema realmente adequado e definir o que é conteúdo apropriado e inapropriado é pessoal e depende de valores e crenças individuais. Cedo ou tarde, as crianças precisarão acessar sites como o Google para fazer pesquisas escolares ou para uso pessoal. Será que ao invés de deixarmos o poder de decidir o que é e o que não é apropriado às nossas crianças a cargo de um site, não seria melhor discutirmos em casa normas de segurança online? Esse tema certamente fará parte de futuros posts.

Para o problema de conteúdos explícitos, não esqueça de habilitar o Safe Search para as pesquisas no Google (mais informações aqui), que evita que vídeos e imagens inadequados sejam exibidos por engano em pesquisas que visam outros conteúdos (mas vale lembrar que se a busca for por esses conteúdos, eles serão visualizados). Para evitar ser inundado por anúncios, uma sugestão é instalar no seu browser o plug-in gratuito Adblock.

 

Screen Shot 2016-03-28 at 7.29.22 PMAline Frederico é pesquisadora e doutoranda em literatura infantil na Universidade de Cambridge e pesquisa livros infantis interativos no iPad. Colabora com o recém-nascido blog Literatura Infantil Digital e coordena o projeto Historinhas em Cambridge de contação de histórias em português. Na Plataforma Brasileirinhos, Aline comanda a coluna High Tech.

 

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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