Retornos

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Por Carla Scheidegger
Coluna Pelo Mundo

Desde minha última viagem ao Brasil, em março deste ano, tenho refletido sobre o que o “retorno” ao país onde nasci e cresci gera em mim e em minha família, bem como de que forma ele se manifesta em nosso dia-a-dia. Para me ajudar nesta questão um pouco filosófica, conversei com Andreia Moroni*, pesquisadora sobre o português como língua de herança na comunidade brasileira da Catalunha para seu doutorado em Linguística Aplicada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em nosso bate-papo, traçamos um paralelo entre os diferentes significados da palavra “retorno” e o PLH.

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A volta ao ponto de onde se partiu
O primeiro ponto-de vista levantado por Andreia foi que, se pensarmos no retorno como a volta ao ponto de onde partiu, ele pode ser interpretado como uma reflexão, a fantasia de um possível reestabelecimento no Brasil: Como seria a minha vida se eu ainda vivesse lá?

Ela explica que a vida no exterior também traz insegurancas e frustrações, que podem ser de caráter prático – como resolver assuntos bancários, matricular os filhos na escola, procurar um emprego – ou sociais, quando as limitações para se expressar e viver de acordo com valores e a cultura locais aparecem. A chance do retorno seria, portanto, um porto-seguro, a possibilidade de voltar à zona de conforto cultual, ao conhecido.

Andreia passou pela experiência efetiva do retorno, quando voltou com sua família de Barcelona à Campinas, sem saber que um dia retornaria à Espanha. Ela confessa que foi um choque cultural, pois já havia absorvido alguns hábitos e processos da cultura catalã. “Passamos por uma fase de re-adaptação, inclusive fisiológica, como por exemplo com o horário das refeições”. Com este relato, chegamos à conclusão de que, quem vive longe de sua terra natal nunca volta ao ponto de onde partiu, pois, como Andreia bem lembrou, “não se banha no mesmo rio duas vezes” (Heráclito).

Ir novamente
Para as famílias que podem passar férias no Brasil, ir novamente para lá é um momento de felicidade, em que as raízes se refortalecem e se pode matar as saudades. Já para crianças que nasceram no exterior, esta visita é muito mais uma ida do que um retorno, pois seu ponto de partida é o país onde nasceram e vivem, segundo Andreia.

Para elas, ir ao Brasil é uma oportunidade de viver na prática o que se aprende em casa e de colecionar experiências positivas. É a “Terra da Fantasia”, como ela descreve; a chance do mimo da família, de mais liberdade, de encontrar os primos e de viver em outros círculos de falantes de português.

Segundo a pesquisadora, “é ali que a língua aflora para a criança”. E eu acrescento que é ali, que o ensino da língua de herança se concretiza, já que ele resgata estes aspectos positivos do nosso Brasil.

Mercadoria que se trouxe em troca da que se levou
Olhando sob este aspecto, conversamos sobre o que vem na mala quando retornamos do Brasil. Levamos presentes, expectativas, saudades, amor e trazemos coisas “que ajudem a construir o discurso de identidade brasileira”, afirma Andreia. “Eu trouxe um filtro de barro e fico muito feliz em ofecer água fresquinha às visitas”, contou orgulhosa.

Os profissionais de PLH, além de parecerem bibliotecas ambulantes, aproveitam para reciclar seus discursos, buscar produtos atuais da cultura de massa (gibis, DVDs), bem como materiais didáticos e paradidáticos que possam ser usados em suas atividades. O retorno é pesado e desconfortável, literalmente.

Voltar a manifestar-se
Por fim, esta é a definição de retorno que mais me agradou na conversa com Andreia. Para as crianças que crescem no exterior em contato com a língua portuguesa e cultura brasileira, participar das atividades de PLH – lideradas por profissionais que retornam e retornam atualizados, motivados e com energia recarregada – significa “criar uma identidade afetiva com o Brasil, expandir a utilização de seus conhecimentos e dar chance à expressão dessa cultura”.

Voltar e manifestar-se é manter esta herança viva e aplicada. É retornar continuamente a um local que já existe dentro delas.

*Andreia Moroni nasceu em Campinas, São Paulo, e mora em Barcelona. Desde 2012 pesquisa o PLH na comunidade brasileira da Catalunha para seu doutorado em Linguística Aplicada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É pesquisadora visitante da Universitat de Barcelona (UB), mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universitat Autònoma de Barcelona e bacharel em Editoração pela Universidade de São Paulo (USP). Foi sócia-fundadora da Associação de Pais de Brasileirinhos na Catalunha (APBC) e colabora regularmente com a Brasil em Mente em Nova Iorque, sendo também uma das professoras do Curso de Formação para Professores e demais Envolvidos com PLH desta instituição. Já deu oficinas e palestras sobre políticas linguísticas na Alemanha, Brasil, Espanha e EUA. Desde 2003 trabalha como tradutora e editora. Seu livro infantil Borboletinha/ Samba Lelê, inspirados no patrimônio oral brasileiro e fruto de suas reflexões sobre PLH e transmissão deste legado de pais para filhos, foram adotados pelo Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE) e tiveram mais de 85 mil exemplares adquiridos pelo governo brasileiro e distribuídos em escolas públicas. Hoje esses títulos estão disponíveis no exterior pela Editora BeM. É mãe do Mateo e da Sofia, sua inspiração para toda essa jornada.

 

Screen Shot 2016-02-16 at 7.27.27 AMNascida em São Paulo e criada no interior paulista, herdou a língua e a cultura alemãs dos meus pais. Estudou Comunicação Social na ESPM e pós-graduei na Fundação Getúlio Vargas, sempre com a certeza de que meu futuro seria longe do Brasil. Há 13 anos vive na Alemanha, trabalhando internacionalmente e valorizando cada vez mais a diversidade.

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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6 comentários em “Retornos

  1. Mais uma prova de que o PLH não pode ser visto apenas como o ensino de um idioma.
    Línguas de herança são muito mais do que uma língua materna ou uma língua estrangeira.
    Elas têm uma dinâmica que extrapola as fronteiras da sala de aula e do ensino convencional de idiomas.
    Envolvem o novo (cultura local), o velho (raízes culturais), relações afetivas dentro da família e a formação da identidade da criança (que poderá ser híbrida ou não).

    Os desafios não estão apenas na transmissão da língua materna dos pais aos filhos. Vão muito além.
    Férias no país de origem e processos de repatriação podem ser muito mais difíceis do que se imagina.
    Vale a pena pensar nisso quando se está na dúvida se o português (ou qualquer outra LH) é uma língua inútil. Eu tenho certeza de que não!

  2. E quanto maior for essa dinâmica fora da sala de aula, maior será essa herança. Falo por experiência própria, de quem recebeu uma LH e agora tem a missão de deixar uma. Obrigada por seu ponto de vista!

  3. Pingback: Returns

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