Livros-aplicativos e novas experiências literárias

Por Aline Frederico
Coluna High Tech

Continuando a série de posts sobre as diversas formas com que literatura e tecnologia se encontram, aqui vou falar dos livros-aplicativos. Hoje em dia existe aplicativo para (quase) tudo, incluindo apps para ler livros em formato digital, como o iBooks ou o aplicativo do Kindle. Mas os livros-aplicativos são apps que são um livro em si mesmo, ou seja, cada aplicativo funciona como um livro e não como uma biblioteca.

Mas a verdade é que os livros-aplicativos podem proporcionar uma experiência de leitura diferente do livro tradicional, seja ele impresso ou digital. Com recursos de áudio como narração, trilha e efeitos sonoros, com ilustrações que podem ser total ou parcialmente animadas, e com as possibilidades do meio digital em usar interatividade ou até gerar ou combinar textos de forma randômica, alguns aplicativos apresentam um jeito de contar histórias como nunca vimos antes.

Embaixo desse guarda-chuva que é livro-aplicativo há muitas maneiras de combinar os recursos audiovisuais e a interatividade com o que conhecemos tradicionalmente como a maneira de contar histórias no formato livro. Nesse artigo vou me concentrar em dois apps, refletindo sobre como eles podem contribuir para o desenvolvimento do português como língua de herança (PLH).

Criando sua própria versão dos contos de fadas
Um dos gêneros mais populares nos livros-aplicativos é o conto de fadas. Há uma quantidade enorme de apps contando essas histórias tradicionais, geralmente voltados a crianças na fase de pré-leitores ou leitores iniciantes.

A Editora Manati foi uma das primeiras a publicar histórias como a Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos, e A Princesa e o Sapo nesse formato, e anos depois esses seguem sendo alguns dos meus apps favoritos em português.

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Nessas versões, cujas histórias foram adaptadas ao contexto atual, é possível escutar a narrativa desde o ponto de vista de diferentes personagens. No caso da Chapeuzinho Vermelho, que tal escutar a versão do Lobo Mau? Ou, melhor ainda, que tal criar sua própria versão da história? Acompanhando a narrativa visual criada pela premiada ilustradora Mariana Massarani, o leitor pode usar a função de gravação e depois escutar a si mesmo contando a história.

Essa função tem um potencial enorme para famílias brasileiras vivendo no exterior. Por exemplo, numa visita ao Brasil, um parente ou amigo querido pode deixar gravada sua versão da história, e assim estar presente na hora da leitura mesmo estando longe, ampliando o vínculo afetivo com a língua e com a família que vive longe. Uma limitação é que esse aplicativo só permite gravar uma versão, e assim, novas gravações eliminam as versões anteriores.

Para crianças que tem preferência em falar na língua local e não em português, essa função pode se converter num jogo divertido e uma das regras pode ser que, quando contando essa história, só se pode falar português. Assim, se cria um momento para inserir o português como experiência lúdica e literária no cotidiano da família e, ao escutar a si própria falando português, a criança amplia a possibilidade de refletir sobre seu uso da língua e de notar melhoras ao longo do tempo, podendo influenciar positivamente sua autoestima como falante do português.

Esses aplicativos ainda apresentam jogos e atividades. Na história da Chapeuzinho, é possível brincar de vestir a Chapeuzinho (e até uma fantasia de Lobo Mau faz parte do guarda-roupa dela) ou o Lobo (que obviamente tem uma fantasia de Vovó), imaginar o que o lobo tem dentro da barriga, que pode ser preenchida com um desenho ou uma foto, ou ainda colorir cenas da história.

A Manati recentemente anunciou o encerramento de suas atividades comerciais (infelizmente), então vale a pena correr pra baixar os aplicativos pois é incerto por quanto tempo estarão disponíveis.

Mergulhando no folclore
Pra viver um pouquinho a cultura brasileira não importa onde se esteja, Meu Aplicativo de Folclore (iOS (https://itunes.apple.com/br/app/meu-aplicativo-de-folclore/id650086942?mt=8) e Google (https://play.google.com/store/apps/details?id=air.Folclore&hl=pt) ), do grande Ricardo Azevedo, e vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Infantil Digital, é, como o nome diz, uma ótima coleção de folclore brasileiro.

O conteúdo é ilustrado e apresenta, além do texto na tela, narração e, em alguns casos, a possibilidade de gravar a própria leitura (por exemplo, na Rádio Trava-Línguas).

Trava-línguas, parlendas, ditados, advinhas, contos e até um bestiário com criaturas tão brasileiras como a Mula-sem-cabeça e o Curupira formam um material riquíssimo que com certeza vai deixar os pais com saudades da infância no Brasil, promovendo uma ligação afetiva com a nossa cultura que muito provavelmente será percebida e estendida às crianças. O material traz aspectos culturais essenciais da nossa identidade brasileira e que podem fortalecer o desenvolvimento dessa identidade nos brasileirinhos.

Esse aplicativo pode ainda proporcionar uma oportunidade de engajamento lúdico com o português a que muitas vezes as crianças têm pouco acesso morando em outro país. Além disso, a possibilidade de brincar com a forma e os significados da língua tem comprovadamente eficácia no desenvolvimento das habilidades linguísticas das crianças.

Para concluir, vale lembrar que, ainda que as crianças possam acessar essas histórias de maneira independente mesmo que não saibam ler, já que geralmente há narração, a participação dos pais e o diálogo que pode ser iniciado a partir dessas narrativas tem um potencial imenso para promover uma experiência linguística e literária ainda mais rica. Portanto, sente com seu filho ou filha para ler, jogar e brincar juntos, em português.

+ Você conhece a biblioteca infantojuvenil brasileira que envia livros pelo correio para todo os EUA?

No próximo post, vamos entender melhor a diferença entre o e-book simples e os livros-aplicativos e conhecer alguns exemplos de e-book que os brasileirinhos vão adorar.

 

Screen Shot 2016-03-28 at 7.29.22 PMAline Frederico é pesquisadora e doutoranda em literatura infantil na Universidade de Cambridge e pesquisa livros infantis interativos no iPad. Colabora com o recém-nascido blog Literatura Infantil Digital e coordena o projeto Historinhas em Cambridge de contação de histórias em português. Na Plataforma Brasileirinhos, Aline comanda a coluna High Tech.

 

 

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

5 comentários em “Livros-aplicativos e novas experiências literárias

  1. Oi Aline, tudo bem?
    Vc sabe o que aconteceu com os apps da Manati? Não encontro mais na App Store brasileira.
    Vivo recomendando por aí então fiquei frustrada, rs. Se tiver informação, você dá um toque?
    Ah, aproveita e passa lá no ipadfamilia.com.br quando tiver um tempinho.
    Obrigada!

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