Por que relacionamos setembro ao verde e amarelo?

Por Felicia Jennings-Winterle
Editorial – Setembro/2016

Mês de setembro. Fim do verão no hemisfério norte, onde muitos de nós moram. Volta às aulas e às atividades extracurriculares, entre elas aquelas que envolvem o português como língua de herança. Mês de Brazilian Day em diversas cidades do mundo com shows dos globais da moda, cujos nomes a maioria de nós nem conhece. Mês de vestir verde e amarelo. Mês do 7 de setembro, da tradicional parada militar que, se parecia forçada em anos anteriores, nesse ano pareceu uma grande piada.

Mas o que é que isso tudo tem a ver? Por que é que relacionamos o 7 de setembro, o “dia” em que D. Pedro I “exigiu” independência às margens do Ipiranga (oh, quadro bonito! Prosaico, mas bonito…) à bandeira do Brasil ou/e suas cores?

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Morar no exterior e continuar a manter uma identidade brasileira “com muito orgulho, com muito amor” (mas de verdade, sem hipocrisia) está bem difícil de uns tempos para cá. Faz tempo que os brasileiros mudam-se, fogem ou invadem outros países por diversas razões: emprego, carreira, estudos, amor, família, busca por melhores oportunidades, por uma qualidade de vida melhor. Mas ultimamente, com o elevado número de notícias, eventos e ações que mais parecem uma volta “no túnel do tempo” aos erros que o mundo inteiro já provou catastróficos, está doído aceitar o Brasil.

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Aceitar, não pertencer. Engolir, não viver o cotidiano. Permanecer otimista, mesmo que de longe, não preservar a imagem de mais de 200 milhões de cidadãos.

+ Você sabe como falar sobre o Brasil com as crianças nesse momento turbulento?

A identidade, que no nosso caso contém (não só isso, mas também) brasilidade, é pessoal. É minha, é sua, é nossa… E é dos políticos também. Mas dos políticos enquanto gente. Por vezes esquecemos que eles são gente também; gente que mente, que rouba, que erra, que acerta, que só pensa em si mesmo, mesmo quando quer parecer altruísta. Mas a minha brasilidade tem pouco ou nada a ver com a do outro.

Nem todo mundo é “corrupto”, rouba dinheiro público, mas todo mundo erra. Pode parecer clichê, mas que brasileirada suja é essa, que corja de ladrões, que bando de preguiçosos, mentirosos, que tira vantagem do outro são esses? Eu e você.

Quem joga lixo no chão? Quem rouba sinal de internet? Quem “esquece” do valor que faturou em dinheiro na hora do imposto de renda? Quem finge que não viu os 2kg a mais na bagagem despachada? Quem diz para o chefe que o metrô atrasou, não que a escolha da roupa se delongou? Quem usa a vaga de deficiente “só por 5 minutos”? Quem finge que não viu alguém ser maltratado?

Eu, você, meu vizinho… nós, humanos. Nem todo humano é brasileiro, mas todo brasileiro é humano.

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Ser brasileiro significa ter nascido em território da República Federativa do Brasil, ter pais nascidos por lá, ter passaporte azul ou ter uma relação de afetividade com o que o Brasil representa. Mas o que o Brasil representa para mim não é o mesmo que para você. E enquanto essa lógica vale quando a minha experiência parece ter sido mais cor de rosa do que a sua, vale lembrar que o que se vê na calçada de casa não é estatística, nem média. Pode até ser estereótipo, mas o meu jeitinho brasileiro de ser não envolve me beneficiar a despeito do outro.

Essa brasilidade tão naturalmente expressa no mês de setembro, em época de copa, em época de olimpíada, em comparações que sem querer querendo fazemos entre nações, vem à tona porque ela simboliza o que somos. Uma nação é caracterizada por sua data de “descobrimento”, de independência, por sua bandeira, por seu hino, por sua língua e por seus ícones. Nada mais natural o Brazilian Day ser em setembro ou as muitas iniciativas que promovem o português como língua de herança construírem bandeiras.

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Você pode até mudar de país, “esquecer” como se fala português, quem sabe até não mais arrepiar-se com o hino nacional; mas nunca, nada, ninguém deveria possibilitar você perder sua essência ou impedir que você a ofereça como herança aos seus filhos e netos.

Não existe um modelo de identidade brasileira, mas sim identidadeS brasileiraS. Mulheres e mulheres, políticos e políticos, policiais e policiais, biquinis e biquinis. Nem todo mundo se identifica (pelo menos não da mesma maneira) com o verde floresta, o amarelo ouro ou pula carnaval. Mesmo assim posso (aliás, devo) celebrar de onde eu venho, o que vivi, aprendi e amei; e devo celebrar onde moro hoje também.

Hoje também sou americana. Também me arrepio com o “Oh, the land of the free… And the home of the brave”. Também busco aprender sobre a história dos Estados Unidos e sempre que necessário critico políticas e costumes com os quais tenho que conviver. Mas celebro minhaS identidadeS.

Clichê? Bobeirice? Pieguice? Nada disso. Pintar um retângulo, um losango e um círculo com seus brasileirinhos nesse mês e em todos os outros, fazer chapéu de soldado, cantar Ciranda Cirandinha é muito valioso. É daí que se constróem mais do que brasileirinhos, cidadãos globais: pessoas sensíveis e inteligentes o bastante para entender que todos somos microcosmos das línguas, culturas e países aos quais pertencemos.

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Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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