A história do bolinho de chuva

Por Rita Turner
Coluna Culinariando

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A historinha acima é pura obra de ficção, mas poderia muito bem ser a história do bolinho de chuva. A verdade é que não há uma história oficial, ninguém sabe exatamente quando ou onde ele surgiu. Mesmo assim, eu aposto minhas fichas na fórmula da “necessidade gera criatividade”, que, digamos de passagem, foi muito usada pelas nossas “vovós” em tempos de menos oferta e mais escassês.

Apesar de marcar presença nas mesas brasileiras, o bolinho de chuva está longe de ser uma iguaria nacional. Muito pelo contrário, é fácil encontrar uma versão parecida dele em várias partes do mundo. Os franceses têm o bugnes, os alemães comem o krapfen, na Itália há o fritelle e os holandeses têm o oliebollen.

O que temos de original é o nome. Se foi criado ou não num dia de chuva, não sabemos, mas devo dizer que é um nome pra lá de simpático, beirando o poético. Tem outra coisa: você já notou que o som do bolinho fritando lembra o som da chuva no telhado?

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Escolhi falar do bolinho de chuva esse mês porque acho que ele combina com o outono. No Brasil, a gente está acostumado a ouvir que as águas de março fecham o verão. Aqui no hemisfério norte, onde muitos de nós moramos, são as águas de setembro, juntamente com as temperaturas mais baixas que trazem fim ao verão e anunciam a entrada do outono e suas cores alaranjadas. Tanto que nesse exato momento, eu digito essas palavras ouvindo o som da chuva fina na janela do meu apartamento.

+ E falando em culinária e cultura, assista a entrevista com o Chef Atala, criador da campanha #comocultura

Esse tempinho mais frio e chuvoso nos convida a entrar em casa, sentar no sofá e diminuir o passo dos dias cheios de verão. Nesse clima, nada mais gostoso do que bolinhos de chuva fresquinhos, daqueles que perfumam a casa inteira.

Minhas lembranças de bolinho de chuva são, como devem ser as de muitos, doces e nostálgicas. Posso visualizar minha avó na ampla cozinha do seu apartamento, em frente ao fogão, fritando bolinhos. À sua direita, uma tigela com a massa mole e clara. À esquerda, um prato forrado com um pedaço do saco de pão da padaria, que ela guardava e usava como papel absorvente. Os bolinhos chegavam à mesa ainda quentes, num prato fundo e acompanhado de café e leite, na mesa eternamente posta com a toalha xadrez coberta por um pedaço grosso de plástico.

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Às vezes, minha avó colocava banana picada na massa. Para os mais tradicionalistas, isso já não é mais um bolinho de chuva, e sim, bolinho de banana. De qualquer jeito, eu adorava quando tinha banana na massa. A cada mordida dava para notar a presença da banana, que tinha uma textura diferente e era sempre um pouco mais quente do que a massa.

Chuva na janela
É bolinho na panela
Eu contando os minutos
Pra sentar ao lado dela
Comendo bolinho quente
E o coração aquecer

Extra, extra!
Para não perder o bom humor durante a temporada de chuvas, aqui está uma charada para você compartilhar (ou não) com seu brasileirinho, dividindo também um pouco da nossa riquíssma música popular brasileira. Escolha a versão da música que mais lhe agrada, jogue no seu buscador, aperte o play e divirta-se!

Charada do bolinho de chuva em duas versões:

  • O que o óleo falou para o bolinho?
  • Pinga ne mim! (versão caipira)
  • Pode vir quente que eu estou fervendo! (versão rock nacional)

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Rita TurnerRita Turner é correspondente de diversos blogs de culinária. Simpatizante do grande chef Alex Atala que costuma dizer que a comida é a maior rede social do mundo, Rita acredita na influência da cozinha na formação da identidade e a vê como um agente fundamental na preservação da cultura de um povo.

© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe sempre com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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3 comentários em “A história do bolinho de chuva

  1. O que falar deste texto? Simplesmente fantástico… Me fez voltar as minhas origens, bons momentos na casa da minha vovó, conseguir até sentir o cheirinho do café e o gostinho do bolinho de chuva! Confesso que não havia lido nada sobre esta singela receitinha e que com certeza, assim como criança quero acreditar que foi assim que nasceu o delicioso bolinho de chuva!
    Quero passar esta história para meus filhos e alunos, e permitir que eles sintam esta magia, construída de forma tão simples, mas com um significado tão grande!
    Obrigada pelo belíssimo texto, Rita Turner.

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