Brigadeiro

Por Rita Turner
Coluna Culinariando

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Chegou a hora de falar de brigadeiro, afinal, esse é o mês do Dia das Crianças. O brigadeiro é talvez o ítem da cozinha brasileira de maior carga afetiva, e não é pra menos. Com seus mais de 70 anos de história, ele é presença marcada em qualquer ocasião que mereça ser comemorada. Denominador comum das festas brasileiras, ele aparece do casamento ao batizado, sendo presença obrigatória nos aniversários de criança.

Para muitos brasileiros, brigadeiro é a primeira coisa (ou a única) que se aprende a fazer na cozinha. Comigo não foi diferente. Quando eu era criança, entediada nas tardes de verão, fazia brigadeiro com minha vizinha Vivi. A gente ia na casa dela, abria uma lata de leite condensado (que nunca falta na despensa), colocava na panela com achocolatado ou com o famoso chocolate do padre, ligava o fogo e esperava dar o ponto.

O trabalho era duro, tinha que abrir lata, acender o fogo do fogão com palitinhos de fósforo, medir o chocolate, e depois, a interminável tarefa de mexer o brigadeiro no fogo. Mas a recompensa era doce, e já começava com os restinhos de leite condensado da lata, que eram raspados até o final.

Enquanto o brigadeiro esfriava um pouquinho – o suficiente para não queimar a boca – a gente se distraía raspando a panela. Ah… que delícia que era aquele momento – o prelúdio perfeito de uma tarde doce de verão. Depois, sentávamos à mesa, colheres à postos, e dividíamos um prato de brigadeiro inteiro sem cerimônia. Ê vida boa.

O Brigadeiro que entrou para a história
Diz a lenda que o docinho ganhou seu nome pois fazia parte das festas de campanha do Brigadeiro Eduardo Gomes que foi candidato à presidência em 1954 e 1950. É isso mesmo, o nome do nosso docinho mais famoso não é nada mais do que um resultado não planejado de arbitragem política. Não foi pensado por nenhum marqueteiro milionário, não veio de Portugal nem do Tupi Guarani.

Os oponentes de campanha do Brigadeiro foram o General Gaspar Dutra em 1945  e Getúlio Vargas em 1950. Com essa informação, dá para fazer uma brincadeira e tentar imaginar como se chamaria no nosso brigadeiro se o docinho estivesse entrado em outra campanha? Vamos ver:

Quando bater aquela vontade de doce, que tal um general de panela?
Vai fazer parabéns? Que tal encomendar um cento de vargas para a sua festinha?

O fato é que podemos contar muito da história brasileira pela vida de Eduardo Gomes, que nasceu no ano da Guerra de Canudos em 1896 e morreu em 1981 durante o Diretas Já. Isso dá história pra muito brigadeiro para você e seu brasileirinho.

Apesar do nome brigadeiro ser o mais conhecido, não se assuste se algum gaúcho lhe perguntar se você gosta de negrinhos, que é como é chamado o brigadeiro no estado mais branco do Brasil.

Quem nunca roubou um (ou dois) brigadeiros antes do parabéns? Eu já, e ainda deixava a forminha de papel plissado vazia na bandeja, com os restinhos de granulado, denunciando o crime.

Me arrisco a dizer que, em festinhas de aniversário, o brigadeiro é até mais concorrido do que o bolo. Também não poderia ser diferente. Quando finalmente o pratinho de bolo chega até você, sua barriga já está cheia de brigadeiro. Isso explica porque sempre sobra bolo mas quase nunca sobra brigadeiros.

Agora, de vez em quando, a gente tira a sorte grande: sobrou brigadeiro e a anfitriã nos ofereceu para “levar um pratinho”. Um gesto de gentileza adorável, e você volta pra casa com um pouco da festa nas mãos, para relembrar e devorar no dia seguinte. Delícia pura!

Um brigadeiro para cada ocasião
Eu costumo dizer que o brigadeiro tem sua categoria própria na cadeia alimentar brasileira de alimentos. Dele, temos o brigadeirão, bolo brigadeiro, sorvete brigadeiro, o brigadeiro de colher, brigadeiro no copinho, brigadeiro de padaria, pizza de brigadeiro, pavê – isso sem falar nas infinitas variações de sabores que existem por aí. Com tantas versões, é natural que haja uma certa confusão na hora de saber qual brigadeiro comer! Confira essa colinha e escolha o brigadeiro certo para você.

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Brigadeiro de festa
Feito para render muito, é bem pequenino, come-se de uma bocada só. Sabor de infância.

Brigadeiro de colher
Quando a vontade de comer brigadeiro se bate com a preguiça de enrolar docinhos. O jeito é fazer uma versão pra comer de colher no sofá. É mais mole pois não precisa chegar ao ponto de enrolar na panela.

Brigadeiro no copinho
Igual ao de colher, porém servido num copinho. Para quem tem preguiça de enrolar, mas não quer deixar de servir brigadeiro na festa.

Brigadeiro de padaria
Conhecido pelo seu tamanho grande, esse brigadeiro é uma sacada genial de algum padeiro que teve a ideia de misturar sobras de bolo com leite condensado ou doce de leite, enrolar, passar no granulado e chamar de brigadeiro. Não tem o mesmo sabor de festinha infantil, porém, como a vida não é uma festa, às vezes apelamos para ele.

Brigadeiro gourmet
Brigadeiro que subiu na vida e trocou o achocolatado pelo chocolate belga, gosta de andar com castanhas, licores e especiarias, mas sua essência continua sendo o leite condensado.

Brigadeirão
Pudim sabor brigadeiro, coberto com o famoso granulado.
Seja na versão clássica, ou uma nova ideia de brigadeiro que agrade sua família, o ato de enrolar docinhos é inegavelmente uma tradição brasileira. Escolha a sua e divirta-se com seus brasileirinhos.

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Rita TurnerRita Turner é correspondente de diversos blogs de culinária. Simpatizante do grande chef Alex Atala que costuma dizer que a comida é a maior rede social do mundo, Rita acredita na influência da cozinha na formação da identidade e a vê como um agente fundamental na preservação da cultura de um povo.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe sempre com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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