Herança ou investimento?

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Por Felicia Jennings-Winterle
Editorial, novembro de 2016.

Você já sabe que o termo mais escrito nesta plataforma e em todos os trabalhos da Brasil em Mente é o “português como língua de herança”. Mas por que herança?

Uma língua pode ter muitos status, quer dizer, dependendo da importância que ocupa na mente e no contexto de seu falante, pode ser materna, estrangeira, segunda, de imigração, de herança. Em cada contexto (informal, acadêmico) usa-se mais ou menos uma certa terminologia. Todas elas têm a ver com o nível de conhecimento e proficiência em um idioma e claro, têm a ver com as visões locais (de diferentes países) sobre multilinguismo, multiculturalismo, imigração, cultura… as tais políticas linguísticas.

Uma língua de herança é aquela que atravessa oceanos e fronteiras e é passada de pais para filhos, de avós para netos. Trata-se de uma transmissão entre gerações de imigrantes. Então, para uma língua ser “de herança” alguém, ou uma família toda, tem que ter mudado de país e tem que ter desejado continuar uma identidade em adição a do local de residência.

E o que é que identidade tem a ver com língua? Tudo. Eu duvido essa ser uma realidade só do rótulo “língua de herança”, mas esta é uma identidade-cultura-língua.

Como todo termo, “língua de herança” é um microcosmos que representa uma variedade de intenções, ações e agendas. Mesmo dentro do campo de estudos e práticas do português como língua de herança (esse aí, das comunidades de brasileiros e portugueses que vivem no exterior), não há consenso sobre tudo. Que dirá entre línguas de herança como um todo.

Há um antigo e caloroso debate em relação a esta terminologia e o que ela significa: uma herança pode ser vista por alguns como uma marca, um estereótipo, uma desvantagem, um primitivismo, um perigo. Por isso, muitos combatem o termo e sugerem outros como “língua internacional”, “língua da família”, “língua de imigração”, e até “língua materna”.

Você já deve supor que eu não concordo com tal visão, mas, não podemos seguir adiante sem nos perguntar: o que queremos é transmitir uma herança ou deixar um investimento? Isso, claro, se você deseja passar pra frente elementos de sua identidade, seus valores e visões em uma língua diferente da que você atualmente opera na maior parte do tempo e que já refletiu sobre isso.

+ Veja aqui dois falantes de herança adultos falando sobre o investimento na herança que seus pais fizeram

Criar filhos/ educar crianças implica inevitavelmente em uma transmissão de conhecimento, um fenômeno que ocorre desde os primórdios da humanidade. Não carregamos somente o código genético de nossos antepassados; de uma forma ou de outra, levamos adiante conquistas, aprendizados, acertos, erros, formas de ver e fazer… cultura. Língua é cultura. Não há outra forma de descrever. Por isso, entender de forma mais abrangente e profunda o que é língua, o que é cultura e o que é identidade é fundamental a todos nós.

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Essa tríade e a visão sobre o que é hu-ma-ni-da-de são elementos que se retroalimentam; entender o que é ser humano facilita a compreensão sobre as diferenças e semelhanças que existem entre nós. Soa clichê, né? Mas precisa ser repetido e repetido: quem somos reflete de onde viemos (nossas heranças) e para onde iremos (nossos investimentos).

+ Você conhece o programa de formação que a BEM oferece para pais, professores e pesquisadores?

É herança porque ao falar com seu filho (ou aluno) em sua língua materna, você o conecta a outros jeitos de ser, de falar, de comer, de festejar, de crer. É investimento porque ao oferecer o conhecimento sobre outra cultura você amplia o repertório desse indivíduo que faz parte de uma geração híbrida, além de o encaminhar a uma cidadania global.

Não é de imigração porque ao estabelecer-se em uma nova sociedade esse deslocamento se torna um dado, uma estatística. Na prática, imigrantes ou não, todos temos diferentes formas de nos representar e negociar com nosso contexto; e, mais do que nunca deve ser dito e repetido: somos de onde decidimos ser e permanecer.

Não é materna porque, por mais vigente que seja na família e entre alguns amigos, a pluralidade de nossas sociedades cobra-nos um diálogo fluente na língua majoritária, mais propensa a inputs diários, diversos e completos. Nossas sociedades têm composições multiculturais, portanto, todas as línguas são, à essa altura de nossa globalização, internacionalizadas. O fato é tão óbvio que sabe-se que cerca de 6.000 línguas são faladas hoje no mundo por pelo menos 1 pessoa, mas que a vasta maioria fala somente cerca de 20-30. Vale dizer porém que, uma língua materna é um dado biográfico. Por mais que “caia em desuso”, sua língua materna (que pode ser mais de uma) sempre será sua língua materna.

Com esses dados em mente, eu direciono-lhe ao título do texto: herança ou investimento?

À nós que reconhecemos as particularidades e a gradação de perfis dentro do contexto de uma língua de herança, o termo é claro, apropriado e justo. Enquanto devemos promover o ensino e a manutenção dessa língua minoritária precisamos também demonstrar e galgar os benefícios específicos que uma convivência diária em mais de uma língua traz à sustentabilidade do bilinguismo de nossos cidadãos em busca de uma real competência linguística global.

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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8 comentários em “Herança ou investimento?

  1. Pingback: Vem aí a 4CPLH!!
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  3. Herança E investimento. No contexto do bilíngue multicultural, ao entrar em contato com suas raízes sua língua de herança vai lhe proporcionar uma experiência plena.

  4. Concordo com a Michele , é uma herança E investimento. Ao transmitir uma língua, você transmite uma cultura também. A criança aprende dois idiomas e dois mundos culturais e cria sua própria perspectiva do mundo. Ela tem uma mente mais aberta e consegue entende melhor o mundo no qual vivemos, um mundo cada vez mais globalizado. E sendo assim, ela tem mais vantagens e mais opções de escolha mais tarde.

  5. Aprender uma língua global: Herança ou investimento?

    E, neste âmbito pergunto:

    Porque é que o Galego é tão idêntico ao Português?
    – A resposta é muito simples: é idêntico porque é a mesma língua.

    O Português é igual ao Galego porque foi criado por decreto Real em 1297, por D. Dinis, 6º rei de Portugal.

    E, neste âmbito a Fundação Geolíngua passou a existir desde 11 de Setembro 2001.

    Entre os objetivos da Fundação Geolíngua estão os seguintes projetos:

    1 – Criar na Galiza o: MUSEU DA LÍNGUA GALEGA Luso-afro-brasileira.

    2 – Criar na GALIZA e na fronteira entre Elvas e Badajoz a maior universidade do mundo, e, a custo ZERO, a GEOuniversidade. – Este projeto foi apresentado em 2002 a ambos os autarcas e ao ex-presidente Lula do Brasil e ao Hugo Chaves da Venezuela – porem, foi totalmente ignorado.

    No texto abaixo descrevo um pouco sobre a verdadeira história da autoproclamada língua portuguesa e uma proposta, neutra, para a língua do futuro.

    Geolingua: novo nome para o Galego-brasileiro.

    Cá está a sinopse de uma Obra a ser publicada em suporte Livro, Teatro e Cinema 3D.

    Como nasceu a língua “portuguesa”
    Segundo relatos e posicionamentos de: D. Afonso X – Rei de Castela e Leão, e D. Dinis – Rei de Portugal; Alexandre Herculano – historiador português e, Humberto Eco – filósofo … e, tudo relatado por Roberto Moreno – prof. e historiador, fundador da Fundação Geolíngua, cujo objetivo é: transcender a língua Galega para língua universal, via a língua “brasileira”.

    Colocações factuais e históricas.

    1 – D. Dinis (sexto rei de Portugal) em 1297, por decreto, cria a língua portuguesa e impõe-na na Chancelaria Real, na redação das leis, nos notários e na poesia, eliminando a língua Galega por razões socioculturais e geopolíticas. – D. Dinis adotou uma língua própria para o reino de Portugal tal como o seu avô espanhol, D. Afonso X, fizera com o castelhano a partir de 1252, por razões geopolíticas (embora, ambos continuassem a utilizar o Galego em suas poesias). – Portanto, como reza a história e, diante dos fatos (factos) – A dita língua “portuguesa” foi criada por Decreto, e, o Galego foi sumariamente banido, ocultado e torturado durante 8 séculos, para já não falar há mais de 2 mil anos, quando se mesclou com o Latim, dando origem ao Galego-latinizado (conhecido como latim vulgar) e que se fala hoje, principalmente em Portugal e no Brasil, nos seus dois dialetos, o português e o brasileiro, respectivamente.

    2 – O conceituado historiador Alexandre Herculano em 1874, disse: “A Galiza deu-nos população e língua, e o português não é senão o dialeto galego civilizado e aperfeiçoado”

    3 – «O certo é que as línguas não podem ter nascido por convenção já que, para se porem de acordo sobre as suas regras os homens necessitariam de uma língua anterior; mas se esta última existisse, por que razão se dariam os homens ao trabalho de construir outras, empreendimento esforçado e sem justificação? » – (Umberto Eco)

    __________________________________________

    Proposta de Roberto Moreno, fundador da Fundação Geolíngua:

    À luz dos fatos e da história e diante destas três colocações – a Fundação Geolíngua propõe-se a seguir os mesmos passos do Rei D. Dinis no âmbito deste ter criado a primeira “marca branca” do mundo, ao nomear de “português”, o Galego.

    O objetivo é designar o Galego, no seu dialeto brasileiro (em sintonia com Alexandre Herculano) – por GEOLÍNGUA (língua da terra). – É uma espécie de “Esperanto II” – uma “nova marca branca” – 8 Séculos após à marca “português”, ter sido criada.

    Esta proposta resulta de uma minuciosa e fundamentada investigação científica, ao consultar varias fontes, além das “oficiais”, desde 1992, onde se vislumbra que: a percentagem que separa uma língua de outra – é de aproximadamente 20%. A diferença, hoje, entre o português de Portugal e o galego é de 7% e, entre o português e o “brasileiro” é de 3%. – Portanto, histórica e cientificamente analisada, o português simplesmente não existe como língua, mas sim como – dialeto evoluído e aperfeiçoado – como afirmou Alexandre Herculano.

    Nesta perspectiva – a futura Geolíngua (Galego-brasileiro) passa a ser a primeira língua do mundo, pelo fato desta, entender 90% do “espanhol”, 50% do italiano e 30% do francês, sem qualquer dificuldade (pelo menos, na linguagem escrita) e une, para já e, a partir do Galego-castelhano (espanhol) 800 milhões de pessoas em 30 países e nos 5 continentes e – se acrescentar o italiano ultrapassa os 900 milhões, superando o inglês e o mandarim, com a vantagem de – a Geolíngua possuir, além do aspecto quantitativo, também o qualitativo, geopolítico e geoeconômico, em simultâneo, o que não é encontrado em nenhuma outra língua do planeta.

    Algumas fontes consultadas:

    – Vídeo ilustrativo sobre o projeto Geolíngua: – http://www.youtube.com/watch?v=aisI7SEry4c

    – A LÍNGUA BRASILEIRA – Eni P. Orlandi
    http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252005000200016&script=sci_arttext

    – O Brasil fala a Língua Galega – artigo do Prof. Catedrático Júlio César Barreto Rocha, da Universidade de Santiago de Compostela – http://www.udc.gal/dep/lx/cac/sopirrait/sr044.htm

    – O português vem do Galego – “Não é correto, do ponto de vista histórico-geográfico, afirmar, como fazem todas as gramáticas históricas, que “o português vem do latim”. – O português vem do galego – o galego, sim, é que representa a variedade de latim vulgar que se constituiu na Gallaecia romana e na Galiza medieval” – Marcos Bagno

    “O nosso idioma é muito mais antigo que a nação. Isto significa que, se nunca Portugal tivesse surgido, esta mesma língua (hoje chamada portuguesa) teria existido sem ele”. Afirma o Prof. Fernando Venâncio, referindo-se à língua Galega e, acrescenta: «Se a língua de D. Afonso Henriques algum nome pudesse ter tido, era só este: galego».

    “Entre Latim e Português: o Galego”

    Posted by Fernando Venâncio on Tuesday, October 20, 2015

    Quanto ao Acordo Ortográfico, sugiro ver a posição de Roberto Moreno, aqui – http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheAudicao.aspx?BID=94935

    Iberofonía – uma visão de Graça Castanho, candidata à presidência da República de Portugal – http://lusopresse.com/2011/254/GeoLingua.aspx

    Português, lengua de la globalización! – É assim, com este título, que começa uma crónica escrita por Roberto Moreno, em 2005, a pedido da jornalista Oriana Alves, na época, a serviço do Instituto Camões, em Lisboa, para uma matéria no Jornal de Letras, de Portugal. – Entretanto, por ORDEM do referido Instituto, esta crónica nunca chegou a ser publicada e foi arquivada sumariamente! – Cá está a Crónica que foi censurada – http://www.recantodasletras.com.br/artigos/3814553

    Geolingua no wordpress – https://geolingua.wordpress.com/

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