Nega Maluca

Por Rita Turner
Coluna Culinariando

Esse mês a coluna Culinariando está de aniversário. Já faz um ano que começamos essa caminhada deliciosa pelos sabores e memórias que fazem parte da nossa história e são pedaços importante da nossa identidade. Em cada texto, um convite à reflexão e à ação: passar para nossos brasileirinhos no exterior um pouco da nossa história pela porta da cozinha.
Para comemorar a ocasião, hoje vai ter bolo – e com receita.

O bolo que trago hoje é o Nega Maluca. Não porque seja o mais festivo – pelo contrário. Por ser um bolo simples, sem cerimônias, é o bolo mais presente nas minhas lembranças de infância, e eu desconfio que na sua também.

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Naga Maluca
O Nega Maluca conquistou os brasileiros, mas está longe de ser uma invenção nossa. O conceito de um bolo fácil, sem a necessidade de equipamento especial ou truques da confeitaria caiu no gosto dos brasileiros. Porém, se mapearmos o Nega Maluca ao “Crazy Cake” americano, vemos que há uma outra história por trás desse bolo.

O diferencial do bolo é não precisar de leite, manteiga ou ovos – ítens escassos em tempos de guerra. Por isso, especula-se que o bolo tenha aparecido no período entre as duas primeiras guerras. Daí que algum cozinheiro ou cozinheira, num momento de desespero, descobriu que era possível substituir a manteiga e o leite por óleo e água, e ainda teve a super-sacada de usar vinagre+bicarbonato de sódio para criar bolhinhas de ar que dão leveza e altura à massa. Estava pronta a receita do Crazy Cake, que ainda pode ser feito diretamente na assadeira, economizando esforço e louça suja.

Cozinha da necessidade
Se a necessidade faz o homem, faz também o que o homem come. A história prova que a habilidade humana, junto com uma boa dose de criatividade, têm se mostrado capaz de inventar e reinventar pratos. Isso é claro em pratos como o feijão tropeiro, por exemplo, criado da necessidade dos tropeiros de transportar comida por viagens longas à cavalo.

No Brasil, porém, achamos várias receitas de Nega Maluca com ovos e leite, fugindo ao conceito original do Crazy Cake. São sempre bolos fáceis e rápidos, com muito chocolate, claro. Afinal, o bolo, que hoje provavelmente seria batizado de algo como: “Bolo afro-brasileiro com distúrbio de personalidade” tem que ter chocolate. Em casa, às vezes eu faço uma versão sem chocolate, que batizei carinhosamente de “Polaca Doida”.

E por falar em nome, vamos então imaginar um possível diálogo que pudesse ter dado origem ao nome do bolo:

Vou bater um bolinho para o lanche
Mas, nega, é fim de mês, não temos ovo nem leite nem manteiga!
Não se preocupe não, vou usar água, óleo e vinagre
Vinagre!? – Essa nega tá maluca…

Sabor de infância
Na minha infância, o Nega Maluca era presença constante na nossa casa. Quem fazia era a nossa empregada que trabalhou em casa por muitos e muitos anos, a Francisca. Uma mulher simples, de cabelos pretos longos e unhas sempre muito compridas e pintadas de vermelho. Francisca era muito amada lá em casa, porém, a confeitaria não era o seu forte e, por isso mesmo, o Nega Maluca era perfeito para ela – e para nós também. Eu e meus irmãos nunca nos enjoávamos do bolo, feito sempre numa assadeira baixa e retangular, mais caseiro impossível.

Casca grossa
Mas espera aí. Ainda não te contei da melhor parte do bolo. A cobertura, feita de água, achocolatado e leite, que formava uma casca durinha que se quebrava quando partíamos o bolo. Como era a melhor parte do bolo, nós, crianças, tínhamos o costume de retirar um pedaço da casquinha cada vez que passávamos pela cozinha e víamos a assadeira coberta com um pano de prato. O resultado, é claro, era um bolo com a cobertura descascada, meio cavocado, coitado, e o pior é que ninguém queria comer os pedaços sem cobertura. Minha mãe ficava uma arara, mas hoje em dia ela também ri do assunto. Coisa de criança.

Por ser uma receita fácil, o Nega Maluca é ideal para fazer com as crianças. Compartilho aqui uma receita que faço – sem ovo, leite ou manteiga, e a sua versão “Polaca Doida”. A cobertura é opcional, mas será sucesso garantido com os pequenos.

E quem disse que Nega Maluca não dá poemeto?

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E agora, às receitas:

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Rita TurnerRita Turner é correspondente de diversos blogs de culinária. Simpatizante do grande chef Alex Atala que costuma dizer que a comida é a maior rede social do mundo, Rita acredita na influência da cozinha na formação da identidade e a vê como um agente fundamental na preservação da cultura de um povo.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe sempre com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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