E no fim, no que vai dar?

Por Felicia Jennings-Winterle
Dezembro de 2016, Editorial.

O fim do ano se aproxima. Mais um ano que passou rápido demais. Mas tudo na vida tem um começo, um meio e um fim. Estamos acostumados com isso… a própria vida é assim. Essa lógica é a essência da filosofia-diretriz de toda a atuação da Brasil em Mente e explora mais do que uma sequência cronológica.

Se você parar para analisar essas três palavrinhas – começo, meio, fim – quantas reflexões pode fazer? Claro, com foco na temática que aqui nos traz, qual é o começo, o meio e o fim do PLH?

Começo se refere ao ponto de partida, à definição de valores, de metas, ao planejamento e à fundamentação. Demonstra a importância das experiências de base, na mais tenra infância, mas também a importância inerente da reflexão sobre essa prática educativa que pode ser tão própria quanto um estilo de vida e tão apaixonante quanto o desenvolvimento de um trabalho em uma iniciativa. Identificar os envolvidos nesse processo multidimensional, que levará muitos anos para demonstrar resultados, e seus papéis, é realmente só o começo.

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É nesse momento também que olhamos para trás, para dentro e nos (re)conectamos com uma velha conhecida, nossa cultura, que, por sua vez, nos diz direitinho quem somos, apesar e mediante onde nascemos e onde vivemos. Familiarizados com passado e presente, passamos a perceber que para onde vamos tem prenúncios em cada atitude que tomamos. A forma como nos aculturamos no exterior, plástica ou flacidamente, em meio a nossa nova família, amigos, costumes e idioma, tem total relação com a forma como crescemos e como valorizamos nossas raízes.

Em meio a toda essa análise, surgem caminhos para desenvolver uma prática sobre a língua de herança, uma língua-identidade-cultura. Os meios pelos quais processos de criação de oportunidades, desenvolvimento de laços afetivos, de desejo de pertencimento são inúmeros. Através de um bom papo, de um abraço gostoso, de contar e ouvir histórias, causos, lamentos, piadas, de aulas, de shows, ao ouvir música, comer, brincar… todos os caminhos levam ao PLH. O meio não é só um ponto entre dois opostos, mas sim, uma ponte, um contexto, uma forma de ver a vida e por ela passar.

Em nosso caso, essa forma de ver a vida é um meio bilíngue, multilíngue, multicultural, diverso e claro, cheio de questionamentos, trocas, diálogos e negociações. O tempo de uma vida vai passando, quase tão rápido quanto um ano, e a gente vai curtindo, chorando, mas, sem remediar, tudo passa. E mesmo lembrando daquelas três palavrinhas mágicas – frequência, consistência e paciência – nem sempre se chega ao que se propôs (ou não) lá no começo.

O fim se aproxima. Um fim está sempre presente. Mas fim não é só a conclusão de um meio – é o laço de um ciclo. Outro abrir-se-á lá mesmo e, aos poucos, a finalidade de tudo o que fazemos vai ocupando um espaço cada mais central. Expande-se, transforma-se, avalia-se o investimento, recalibra-se as expectativas, os recursos, as oportunidades e, quando menos esperamos, está na hora de recapitular, com sorrisos e lágrimas, e de pular ondas e saudar o novo começo.

A cada ano que termina, me sinto um pouco assim, em (re)avaliação, em todos os aspectos possíveis e, posso só imaginar o que deve sentir um pai e uma mãe que começam a planejar como vão se sentir quando os filhos crescerem, partirem, criarem suas próprias vidas. Puxando de novo o rabo do PLH, compartilho com vocês uma grande emoção. No final da semana passada tive o privilégio de conhecer 2 falantes de herança que, hoje, estão no fim do que podemos pensar como uma formação dada em casa, por seus pais, mas brilhantemente ressoando os princípios que a eles foram dados em meio à toda uma vida e por isso, revelando o mais bonito dos momentos – o começo do começo.

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Gustavo e Gabriel se depararam recentemente com a notícia de que são falantes de herança. Com humildade, amor e muita empatia, têm só a agradecer a seus pais e dão um recado àqueles que hoje se questionam se estão fazendo o melhor investimento. Veja só:

Aos pais do Gustavo e do Gabriel, uma salva de palmas. Parafraseando o grande Ziraldo, no fim esses meninos cresceram e viraram caras legais, legais mesmo.

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

3 comentários em “E no fim, no que vai dar?

  1. Admiro demais o trabalho que a BEM faz e amei ver o vídeo dos meninos falando português. É raro encontrar exemplos de crianças já crescidas que tiveram duas ou mais línguas na sua infância e adolescência. Sensacional!

  2. Pingback: Mais PLH em 2017

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