Convite à Navegação, uma embarcação comandada por Susana Ventura

Coluna Lendo
Convidado especial: Julio de Carvalho

O livro Convite à Navegação, de Susana Ventura, autora que acaba de ganhar o Prêmio Jabuti 2017, ilustrado por Sílvia Amstalden, satisfez o meu gosto pessoal por História e, ao mesmo tempo, falou de Literatura Portuguesa. Conheci a autora em 2015 em um piquenique literário no Central Park, em Nova Iorque, no qual ela leu parte de outra publicação, O Tambor Africano e Outros Contos dos Países Africanos de Língua Portuguesa, que reúne memórias de pessoas que falam a mesma língua mas têm culturas diferentes.

Convite à Navegação começa com um breve histórico da Península Ibérica, contextualizada desde as invasões dos mouros, da Reconquista, da formação de seus idiomas, até chegar ao século XII, com a expansão do Trovadorismo. Na verdade, a autora detalha como o Português foi formado e transformado, desde o império romano até os dias de Saramago. Mas como que ela fez isso? Resumiu esse grande período histórico sem passar muito tempo em uma ou outra parte, usando palavras de fácil compreensão.

Ao longo da obra, Susana faz referência à ideia de viagem, usando várias metáforas para passar de uma seção à outra e para ilustrar a cronologia do livro. A principal delas é “convite à navegação”, homônima ao título. Na realidade, parece que seu desejo foi encantar à reflexão sobre as proezas dos povos de Portugal e Espanha, que mudaram o mundo – notavelmente a expansão marítima que começou no século XV.

+ Leia aqui sobre outro livro de Susana Ventura, Eu, Fernando Pessoa

Outra é “viajar ao passado”, às origens das coroas portuguesa e espanhola. Esse convite se refere a tudo que aconteceu antes do século XV, data que a invenção das caravelas e a primeira embarcação de transporte ocidental são situadas. Essa metáfora é usada na transição do capítulo sobre as novelas de cavalarias, Amadis e Oriana e suas cantigas, para os tempos da invenção das caravelas no trecho: “É tempo de deixarmos Amadis e Oriana e seguirmos viagem, não pelo espaço, desta vez, mas pelo tempo, enquanto se planejam e se tentam construir naus com as árvores dos pinheiros plantados por ordem de D. Dinis”.

“Nossa viagem começa pelo mar” é uma terceira expressão usada pela autora para voltar ao histórico da Península Ibérica que acabou se tornando “um cadinho” de uma série de manifestações culturais. Ao leitor é dado um assento privilegiado a partir da onisciência de uma narradora tão versada.

Já a metáfora “transpor os Pirineus” demonstra a influência da poesia Trovadoresca Provençal (quer dizer, que vem de uma região na França chamada Provença) mostrando que foi lá que esse movimento literário começou. Esse recurso auxilia a transição geográfica, que é diferente da anterior, que é temporal.

O livro traz também referências de escritores portugueses posteriores aos trovadores. Por exemplo, a metáfora “Por mares nunca dantes navegados” é uma referência à obra de Camões, Os Lusíadas, momento no qual Susana ressalta que para entender um escritor, é preciso “entrar por seus territórios privados” porque muitas vezes sua vida e produção são “entrelaçadas”. Essa famosa expressão é usada para ilustrar a chegada dos portugueses a diversas áreas “nunca dantes conhecidas” por europeus. Além disso, essa seção explica a obra de Camões, conta-nos um pouco sobre sua vida e dá um gostinho do Renascimento.

A narrativa é concluída com “Adeus, adeus: embarcando numa certa jangada”, momento no qual nossa habilidosa capitã faz referência a autores portugueses mais modernos como Fernando Pessoa (1888-1934) e José Saramago (1922-2010). Especificamente Mensagem, onde Pessoa faz releituras de trechos de Os Lusíadas, e A Jangada de Pedra, onde Saramago reconta a história de Portugal quase que em ficção científica.

Eu gostei muito da construção do texto sobre figuras de linguagem, pois eles o deixam mais interessante e dão uma ideia de “viagem”. Para alguns leitores, pode ficar a impressão de que não se vai a lugar nenhum, ou que a jornada não chegou ao fim. Mas esse não é o propósito do livro. Ao invés disso, se detém em contar o preparo da viagem faz simplesmente um “convite”.

Desde o sobrevoo da Península Ibérica e suas interações entre os povos que viviam por lá, passando pelos Pirineus e chegando à França, fonte inspiradora do Trovadorismo, vislumbra-se a preparação e o desenvolvimento da expansão marítima, chegando ao Renascimento e o Modernismo. Convite à Navegação detalha vários aspectos da evolução do nosso idioma, lado a lado com a do país.

Aliás, a história da Língua Portuguesa é dependente da de Portugal, e vice versa. Por exemplo, a influência do Galego no Português e no Castelhano é visível ainda hoje. Na região norte, mais próxima à Galícia, as pessoas falam de modo muito mais próximo ao Castelhano, do que no sul.

Ademais, a expansão de Portugal foi feita de maneira mal-estruturada e associada às dificuldades de controle nas colônias. Como consequência disso e de guerras do século XIX, o país se endividou e carregou pobreza e instabilidade financeira por seis séculos.

A Língua Portuguesa tem influência mundial, principalmente em negócios. Porém, está mais associada ao Brasil, uma ex-colônia, do que a Portugal. Contudo, um não seria o que é sem o outro. Esta obra ilustra isso. A autora nasceu no Brasil, tem cidadania portuguesa e sua publicação é de uma editora brasileira, a Peirópolis, que tem como missão internacionalizar o Português. Acredito que o livro tenha conseguido desempenhar esse papel.

Julio de Carvalho é adolescente e vive em Nova Iorque. Há 5 anos ele faz aulas de português para manter sua fluência e proficiência. Sua mãe escreveu um relato há alguns anos na coluna Perfil e Opinião que explica essa decisão.

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