Vamos deixar de amarelar? LENDO Chapeuzinho Amarelo

A Cristina Marrero (da coluna LENDO) e as demais maravilhosas contadoras de histórias que estão por esse mundão afora que me deem licença, mas ontem não só ouvi uma história como aprendi uma grande lição com a Alice, uma aluninha de 7 anos. Por isso resolvi recomendar a você, adulto, a leitura do livro Chapeuzinho Amarelo.

Obra que os grandes Chico Buarque e Ziraldo assinam, conta a história de uma menina que tinha medo de tudo.

“Já não ria.
Em festa, não aparecia,
não subia escada nem descia.
Não estava resfriada mas tossia.
Ouvia conto de fada e estremecia.
Não brinacava mais de nada, nem de amarelinha”.

E porque você acha que eu recomendaria uma leitura dessa para você, um adulto? Ora, medo é coisa de criança ou só de criança?

Há quem diga – e minha nova musa inspiradora disse de forma ainda mais clara – que quanto mais velha a pessoa, mais ela sabe. Ao dizer que o irmãozinho tem medo de avião, indaguei porque ela não tinha. E ela: porque ele sabe de histórias de avião caindo… eu não. Eu não sei de nada.

Quanto mais sabemos, mais tememos.

A gente sabe muito e conforme os anos vão passando e a vida vai nos dando calos e baldes de água fria, vamos ficando calejados e escaldados. Por isso, há de se tomar cuidado.
Uma das partes que mais me tocou no livro foi a seguinte:

“Tinha medo de trovão. Minhoca, pra ela, era cobra. E nunca apanhava sol porque tinha medo da sombra. Não ia pra fora pra não se sujar. Não tomava sopa pra não ensopar. Não tomava banho pra não descolar. Não falava nada pra não engasgar. Não ficava em pé com medo de cair. Então, vivia parada, deitada, mas sem dormir, com medo de pesadelo”.

O que me chamou atenção é que sim, existem, mas são poucas as crianças que vivem paradas, deitadas, sem dormir, pensando e repensando no que disseram, fizeram, deixaram de fazer. Somos nós, adultos, que fazemos isso. Logo, o livro é para adultos mesmo que os componentes remetam a obras do imiginário infantil.

Mas foi a Alice, pequena grande menina, quem comentou a passagem de maneira brilhante: “Ela tinha medo de fazer e de não fazer, de ler e de não ler, de desenhar e de não desenhar, de ter medo e de não ter medo. Ela não fazia nada!!!”

É, Alice. O medo nos paralisa e talvez por isso os dias têm se arrastado ultimamente. Parece que se ouve esse paradoxo (literalmente) no mundo inteiro: ao mesmo tempo que não temos tempo para nada, fazemos muito, muito de muito pouco. Falamos que vamos fazer um monte de coisas e acabamos não fazendo nada… por medo.

Chapeuzinho Amarelo confronta um de seus medos – o de lobo – e, ao olhar bem pra ele, foi “perdendo aquele medo, o medo do medo do medo de um dia encontrar um LOBO”. Ela de fato o encontra, confronta e afronta.

É liberta porque com a pouca importância que passa a dar para o lobo, que “envergonhado, triste, murcho e branco-azedo, porque um lobo, tirado o medo é um arremedo de lobo”, muda sua perspectiva. O LOBO vira BOLO, barata vira tabará, dragão vira gãodra.

Não é maravilhoso? Dar nomes esdrúxulos para produtos da nossa imaginação? (é, porque se existe algo imaginário e ilusório é o medo).

O que ficou para mim provavelmente não ficará igual para você. Você provavelmente tirará muitas outras conclusões da criatividade e maestria de Chico e Ziraldo. Mas uma coisa é certa: temos que enfrentar nossos lobos (e bolos), dar-lhes a atenção que merecem e continuarmos. Sempre andando, fazendo e trabalhando.

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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