Advento da Leitura – É TUDO INVENÇÃO

Dica 21 – faltam 4 dias para o Natal 

A dica de hoje é do autor Alexandre Brito, um cara muito bacana. Para saber mais sobre ele e seus livros, veja aqui.

O bicho gente é um inventa-tudo. Inventa isso, inventa aquilo, aquele outro. É um inventa-mundos. E depois que inventou a palavra e começou a falar pelos cotovelos virou um bicho que pensa e dispensa comentários, porque o pensamento, o seu maior invento, só faz repensar e reinventar o que se pensa e o que já foi pensado.

Pensando nisto pensei num escritor. O escritor ou a escritora é um bicho que inventa sem pedir licença. Pensei num escritor que quando a gente pensa que não tem pé nem cabeça é aí que a gente se dá conta da sacada de letra que ele nos apresenta, e que faz toda diferença. Este escritor é o Ricardo Silvestrin.

O Ricardo Silvestrin escreveu um monte de livros legais. Pra gente pequena, média e grande. Mas quero mostrar um poema dele que simplesmente respondeu a uma pergunta gigante. Filósofos, linguistas, hierofontes, se debruçaram sobre o assunto assuntando mundos e fundos mas não encontraram resposta alguma a esta indagação profunda. Ele, só ele respondeu à esta questão, escrevendo o poema… A invenção do ponto de interrogação.

A invenção do ponto de interrogação
A escrita
já tinha sido inventada.
Todas as letras,
as sílabas, as palavras.
Mas houve uma fase
em que escrever uma frase
estava causando
a maior confusão.
Tudo porque ainda não existia
O ponto de interrogação.
Alguém escrevia
por exemplo
qualquer coisa besta
como “Hoje você vai à festa”
e recebia como resposta
algo assim:
“Você não manda em mim”.
E logo tinha que esclarecer:
“Sua anta, isso era só uma pergunta”.
Pronto, virava uma briga
só por causa do ponto.
Até que alguém se deu conta
que quem pergunta
não apenas fala,
mas também escuta.

Então deu na sua telha
de colocar sobre o ponto final
o desenho de uma orelha.
Já prestou atenção?
Tem uma orelha no ponto de interrogação.

A publicação é da Editora Ática, de 2003, com iluustrações de Luiz Maia. Acho importante frisar que depois da invenção da palavra, essa coisa desmesurada, que deu ao bicho-gente uma estatura muito além da do mamute, do chimpanzé e da girava, foi a invenção da pergunda que resultou a todas as respostas. E o ponto de interrogação, como bem descreve o Ricardo Silvestrin, tem a forma da escuta, do silêncio de quem ouve, da orelha que sabe ouvir.

É tudo invenção do Ricardo Silvestrin é todo invenção.

Como tudo. A dança, a canção, a pipoca, o perfume, a janela… tudo foi inventado. E o Ricardo, o livro do Ricardo, nos mostra isto de um jeito magnífico. Com vírgulas, aspas, pontos de exclamação… e reticências.

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