Calendahistória – É hoje!

Por Juliana Winkel

De longe, chegavam ao quarto as batidas surdas da percussão. Igor olhou pela janela, tentando decifrar de onde vinha o som. Viu, ao longe, o verde das montanhas da Tijuca. “No Brasil não existem montanhas”, tinha ensinado o tio, explicando que eram muito baixas para serem chamadas assim. Então, ok, ele via da janela o verde dos morros da Tijuca.

Era final da tarde de sexta-feira, sexta de Carnaval. Igor tinha chegado ao Rio uma semana antes, na primeira viagem de avião que fazia sem os pais, para visitar o tio Afonso. Seriam dias especiais para os dois, que não se viam há um bom tempo – desde que o tio tinha voltado de Portugal, onde havia morado, e onde Igor ainda morava. Agora, era a chance de mostrar ao sobrinho a cidade para onde tinha se mudado.

E assim fizeram: os primeiros dias foram de caminhada na beira da Lagoa, mate em Botafogo, pôr-do-sol no Arpoador, praia em Ipanema, café no Jardim Botânico e almoço em Santa Teresa. Teve visita ao Museu Nacional e Cais do Valongo. Teve passeio no centro velho, que Igor achou parecido com Lisboa. E, claro, as tradicionais subidas ao Cristo e ao Pão de Açúcar.

Conforme os dias iam passando, Igor reparava em uma coisa: quando saíam para passear, via sempre mais pessoas com fantasias pelas ruas. E não era pra ir a festas ou blocos: era uma cidade que saía, toda colorida, para fazer compras ou andar na calçada. Adolescentes, crianças, mães com carrinhos de bebê, andando por aí com tiaras de anteninhas, asas nas costas, maquiagem.

Outra coisa aconteceu naquela semana: às vezes, seu tio precisava sair sem dizer para onde. Da primeira vez, Igor foi passear com Valéria, amiga dele, que o levou pra ver o Forte de Copacabana e tomar sorvete. Em outro dia, foi com Dimas, amigo flamenguista roxo, conhecer o Maracanã.

Naquela sexta, iriam assistir ao Desfile das escolas no Sambódromo. Ele nem acreditava! “Faça várias fotos pra mim!”, disse a mãe. Quase na hora de sair, tio Afonso perguntou: “Você aguenta ficar acordado até tarde?”. Igor fez que sim, lógico.

Quando saíram, passava um ônibus em frente ao prédio. Dentro dele, uma multidão de cores, plumas e fantasias. Igor perguntou:
– Tio, eles estão indo ver o desfile?
– Não, Igor – o tio respondeu, seguindo o ônibus com o olhar. – Eles são o desfile!

Igor entendeu a resposta quando chegaram à Marquês de Sapucaí. Ficou de boca aberta com a multidão de pessoas que se encaminhavam para a concentração e para as arquibancadas! Em meio ao barulho geral, identificou o som de percussão que ouvia sempre da janela do quarto. E, olhando de novo, reconheceu Valéria, vindo na direção dos dois.

– Oi, Igor! Preparado para a “grande noite”?
– Oi, Val! Você também veio ver o desfile!
– Sim, vim ver o desfile com você!

Igor olhou para o tio, que disse:
– Apareceu uma coisa pra eu resolver, Igor, mas não é nada demorado. Volto depois pra terminar de assistir o desfile com vocês.
– Ah, sério, tio? Mas hoje?
– Pois é, mas vai ser rápido, você vai ver! Pode procurar o lugar com a Val que eu chego logo!

Valéria levou Igor para a arquibancada. Meio emburrado, ele se sentou, observando o movimento. O que o tio podia ter de tão importante pra fazer na noite de Carnaval?

Quando a rua se esvaziou para o começo do desfile, seus pensamentos desapareceram. No início do Sambódromo, ele ouviu a chamada de bateria – e o som ritmado que ditava a escola se aproximando. Quando a Comissão de Frente passou sob eles, ficou hipnotizado pelos movimentos que anunciavam o espetáculo a seguir.

Era verdade o que o tio havia dito: as pessoas no ônibus eram o desfile! As mesmas que ele tinha visto nas ruas, pessoas de todo tipo – não apenas os famosos, da TV ou das revistas.

– Está gostando, Igor? – perguntou Val, levantando a voz.
– Maneiríssimo! – Ele respondeu, exercitando a expressão recém-aprendida nas férias.

O ritmo da percussão ia chegando cada vez mais perto. E quando Igor achou que era hora de ver a bateria passar, uma surpresa: em uma curva lenta, eles começaram a entrar em uma área bem ao lado de onde ele estava, para continuar a música dali!

– Esse é o recuo da bateria, Igor! – explicou Val. Eles ficam ali para dar o ritmo até o final do desfile da escola. Seu tio achou que você ia gostar de ver de perto – disse Val, com um sorriso cúmplice.
– Puxa Val, será que ele demora muito? Está perdendo o melhor!
– Ah, ele deve chegar logo. Olha só, dá pra ver um pouco da bateria ali pelo muro! Vamos?

Ele correu em direção ao recuo e mergulhou no que viu: os detalhes de cada instrumento, os movimentos precisos dos músicos, a cadência de todos mandando a escola para a frente. O peito ribombava. E, no meio dos percursionistas, tocando repique, estava tio Afonso!


Igor começou a pular, quase saltando lá no meio. Val estava logo atrás:
– Viu como seu tio veio?
– Vocês me enrolaram!
– Ele queria te fazer uma surpresa!

Quando a bateria começou a sair do recuo, tio Afonso deu uma olhada rápida para trás. Encontrou os olhos de Igor e sorriu. Ele acenava e ria.

Ao reencontrar o tio, Igor não conseguia ficar parado – nem calado.

– Tio, desde quando você participa dos desfiles? Você tinha ido ensaiar essa semana? Quanto tempo a bateria ensaia por ano? É muita gente! Você viu na hora em que a sua fileira apareceu no telão? Tio, eu quero estudar percussão! Será que um dia posso tocar na Escola com você?
– Mas é claro, Igor! Se depender de mim, você está dentro! – disse o tio, entregando nas mãos dele o repique.

Felizes e cansados, os três pegaram o ônibus que os levaria para casa. Ao passar por um bar, Igor ouviu lá dentro a letra de um velho samba – e pensou que tinha muitas coisas para contar à sua mãe. Na cabeça, as palavras o acompanhariam até as primeiras aulas de repique, já em Portugal:

“Oi no balanço das ondas, eu vou
No mar eu jogo a saudade, amor
O tempo traz esperança e ansiedade
Vou navegando em busca da felicidade!”

Juliana Winkel é jornalista e tradutora. Paulista, vive em Roma desde 2013. É mãe do Adriano, com quem espera ter uma coleção de experiências gostosas envolvendo o Brasil.

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Calendahistória – Dia das crianças

Coluna Calendahistória
Por Juliana Winkel

– Quer dizer que, como é Dia da Criança, hoje as crianças não vão para a escola?

O avô de Clara, Norberto – ou Seu Nonô – riu diante da pergunta. Como todas as sextas-feiras, eles batiam papo pelo computador: ele no Brasil, ela no Canadá. O ritual se repetia já há alguns anos, desde que seu filho, pai da menina, tinha se mudado para lá com a família.

Naquele 12 de Outubro, a conversa girava ao redor do significado da data. E, como fazia um calor danado, Nonô falava com a neta tendo ao lado um copo geladinho de suco de graviola – que recebia constantes olhares de Clara, pois era o seu preferido.

– Não é “porque” é Dia da Criança, querida – explicou ele. Coincidentemente, hoje é também um feriado religioso, dia de Nossa Senhora Aparecida, considerada padroeira do Brasil. Mas sim, as crianças da sua idade podem aproveitar para ficar em casa – sorriu.

– Pena que eu não estudo aí!

– Sim, mas vocês têm outras datas nesse período que nós não temos, como o Dia de Ação de Graças, por exemplo. Cada país tem seu calendário. Não foi isso mesmo que sua professora pediu que vocês pesquisassem?

A menina pensou um pouco.

– Sim… e o Thanksgiving não tem perigo de cair no domingo – ela riu.

O avô riu junto.

– É verdade. Mas você gosta tão pouco assim de ir à escola?

– Não vô, é brincadeira. Eu gosto da escola – ela respondeu. – Mas claro que um feriadinho não é mal, né?

– Não! – disse Nonô. – Mas voltando ao assunto das datas festivas… como anda sua pesquisa?

Na semana anterior, Clara havia comentado com o avô que a escola sugerira um trabalho sobre as datas festivas ao redor do mundo, inspirada no “Thanksgiving”, a famosa tradição americana. Como brasileira, ela tinha escolhido falar sobre o Dia das Crianças.

– Ainda não juntei muita coisa – ela respondeu. – A pesquisa é para o mês que vem.

– Então acho que nisso posso ajudar! – disse ele, mostrando algumas revistas antigas sobre a mesa. – Você sabe que eu sou publicitário, não sabe? E dessa história eu me lembro pessoalmente…

Clara ficou curiosa para entender do que o avô estava falando.

– O que são essas revistas?

Ele pegou a primeira da pilha, em um formato grande, diferente do que a menina estava acostumada a ver. Mostrou uma das páginas, cheia de fotos preto-e-branco de crianças pequenas. O anúncio dizia que aqueles bebês eram finalistas de um concurso nacional.

– Essa revista é de 1967 – disse ele. Naqueles anos, uma famosa marca de produtos para bebês fazia um concurso anual para escolher as crianças mais “bonitas” – e, claro, aproveitava para divulgar bastante o seu nome. Esse concurso ficou tão famoso que dizer que o filho de alguém poderia concorrer virou sinônimo de elogio. Lembre-se que, antes da internet, ver a foto do filho em uma revista era um acontecimento bem importante!

– Legal! Mas o que isso tem a ver com o Dia das Crianças?

– Tem a ver que esse concurso, na verdade, foi criado após uma outra marca famosa de brinquedos do Brasil ter inventado a “Semana do Bebê Robusto” para aumentar as vendas de sua principal boneca, durante a semana do dia 12 de Outubro. E os pais também podiam enviar fotos de seus filhos de até 2 anos, concorrendo a prêmios e divulgação. Isso aconteceu na década de 50, mas não tenho revistas com esse anúncio para te mostrar…

– Ah vô, se eu inventasse uma propaganda chamada “Semana do Bebê Robusto”, também não ia querer guardar nada de lembrança!

Foi a vez de Nonô dar uma gargalhada.

– Ah, querida, naquela época o vocabulário das pessoas, assim como das propagandas, era um pouco diferente de hoje. E também o que era considerado “bonito” ou não! O “Bebê Robusto” se chamava assim porque a boneca era rechonchuda, o que era considerado sinal de saúde – explicou. – E não fui eu que criei essa propaganda, não. Nessa época eu também era criança!

– Então o Dia da Criança nasceu para vender mais brinquedos?

– Na verdade, não… a data já existia desde 1924, mas ninguém prestava muita atenção. Mas foram, sim, as indústrias de artigos infantis que criaram a cultura de dar presentes nesse dia.

– Puxa… essa “tradição” é diferente das outras que estudei. É a primeira vez que vejo o “dia de alguma coisa” ficar famoso por causa de uma propaganda.

– E não é o único caso… mas isso não quer dizer que essas datas não tenham seu valor. Eu sempre acreditei que toda data festiva é, também, uma oportunidade de refletirmos sobre aquele tema, ou de estarmos mais perto de quem é importante para nós. Até nosso aniversário é assim! E no Dia das Crianças é igual. Com ou sem presentes…

A menina pensou um pouco.

– É verdade, vô! Muitas coisas podem ser um “presente” nesse dia. Até um copo de suco de graviola… – ela riu de novo.

E foi nessa hora que a mãe entrou no quarto onde Clara costumava falar com o avô, trazendo uma bandeja com… um copo de suco de graviola e um pedaço de bolo de fubá.

A menina não acreditou no que estava vendo.

– Mãe… onde você achou graviola para comprar aqui?!

– Pensei que poderia ser um bom presente de Dia das Crianças – a mãe respondeu, com um sorriso cúmplice, olhando para o avô na tela do computador.

Ele levantou o copo, fazendo um brinde. Clara, feliz da vida, fez o mesmo.

E unidos pelo gosto das lembranças divididas, avô e neta comemoraram juntos mais um dia especial.

 

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Juliana Winkel mora na Itália e sabe que a distância não desaparece, mas também acha que existem várias formas de chegar mais “perto” de quem é importante. Na pesquisa para esse texto, descobriu que o Dia das Crianças é comemorado em diferentes datas, de acordo com cada país – inclusive no dia 20 de Novembro, quando foi proclamada a Declaração Internacional dos Direitos das Crianças. Mas sobre o 20 de Novembro (no mês que vem) teremos também outras histórias… 😉