Mais PLH em 2017

Felicia Jennings-Winterle
Janeiro de 2017

Para começar 2017 com o pé direito, você se propôs a fazer coisas mirabolantes, não foi mesmo? Perder peso, reconectar com aquela pessoa especial, economizar os tubos para fazer um cruzeiro e quem sabe até, aprender a falar francês. E se você é mãe/pai de brasileirinho e mora no exterior, provavelmente pensou: “nesse ano vou apostar no português aqui em casa”, não pensou?

Você se deu conta, por uma razão ou por outra, que essa não é uma língua inútil, afinal, todas as línguas devem ser valorizadas; que o português como língua de herança é também um investimento; que mãe, pai, avós, escola, comunidade – todo mundo tem um papel; e que há inúmeros benefícios em fazer da sua uma família bilíngue.

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Mas, será que dá certo mesmo? Será que vale a pena? Ou será que essa é só mais uma resolução inatingível? As respostas a essas questões vão depender de muitos fatores, mas especialmente, de você e sua atuação (se você quiser ter um gostinho do que o seu futuro pode ser, veja aqui).

Nesse ano vou (começar a) apostar no português aqui em casa
Se a sua resolução foi “nesse ano vou apostar (ainda mais) no português aqui em casa”, pule para o próximo ítem.

Você já se sentiu atormentada(o) por algumas (ou todas) das questões a seguir? Então, primeiro, vamos resolvê-las!

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E agora, se sente melhor? Já conversou com outros pais que educam crianças bilíngues? Atenção: só faça isso depois de fazer as suas próprias reflexões. Pense sobre suas intenções nessa “aposta no português”? Coloque-as no papel. Responda a si mesma(o):  O que é uma herança? O que significa transmitir uma herança cultural? Por que é importante para você que o seu filho fale português? Por que seria importante para ele? Você quer que ele fale ou que fale e escreva? Deseja que o português seja uma vantagem no presente ou no futuro também? 

+ Não sabe por onde começar ou como continuar? Converse conosco. Oferecemos consultoria para pais, iniciativas e escolas. Veja, aqui.

 

Nesse ano vou apostar (ainda mais) no português aqui em casa

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Para começar com o pé direito, tire proveito dos diversos recursos que hoje existem a seu dispor. As mídias sociais, por exemplo, estão cheias de grupos de pais bilíngues. Filtrando o que não lhe serve, especialmente a negatividade de alguns pais que se candidatam a especialistas, há sim muita dica bacana.

Invista em material de qualidade, em livros o r i g i n a i s, nada copiado ou em PDF pego na internet, em apps, músicas e jogos que tenham boas reviews. Invista também em orientação, em reciclagem. Faça o programa de formação da BEM e/ou no programa de consultoria que oferecemos. Leia, reflita, prepare-se. Planejamento é primordial nessa prática (em casa ou em uma iniciativa).

Faça da sua teoria a sua prática. Quem sabe você ainda não tem uma teoria, ou não sabe que tem uma. Mas, como perguntei em um outro post, o quão útil é essa língua na vida de seus filhos? Há um real diálogo nessa língua? Há inputs que fazem dela enriquecida, interessante, prestigiada? Os seus filhos têm oportunidades de desenvolver esse idioma? Têm oportunidades de aumentar seu conhecimento sobre ele? Você tem contato com outras famílias que mantém um estilo de vida bilíngue?

Vá viajar! Coloque seus filhos em contato com brasileirinhos que vivem em outros países! Prestigie os eventos que são promovidos em sua proximidade! Colabore com a iniciativa aí perto de você! Incentive outros pais mostrando o lado positivo de sua jornada.

Envolver-se não deixa de ser uma versão de investir. Entre em contato com o seu consulado. Pergunte a eles quem está promovendo atividades em português. Tem livros em português que você não usa mais? Doe (para a biblioteca da BEM ou para a sua biblioteca local). Brinque com seus filhos. Converse com eles. Conte como foi o seu dia, pergunte como foi o dia deles.

Um herança cultural não se deixa numa gaveta no sótão na esperança que alguém a encontre. É preciso construir esse estilo de vida t o d o s   o s   d i a s ,  sempre lembrando-se de 3 palavrinhas mágicas: frequência, paciência, consistência.

Um feliz 2017!!!

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
© Nosso conteúdo é protegido por direitos autorais. Compartilhe somente com o link, citando: Plataforma Brasileirinhos, Brasil em Mente.

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E no fim, no que vai dar?

Por Felicia Jennings-Winterle
Dezembro de 2016, Editorial.

O fim do ano se aproxima. Mais um ano que passou rápido demais. Mas tudo na vida tem um começo, um meio e um fim. Estamos acostumados com isso… a própria vida é assim. Essa lógica é a essência da filosofia-diretriz de toda a atuação da Brasil em Mente e explora mais do que uma sequência cronológica.

Se você parar para analisar essas três palavrinhas – começo, meio, fim – quantas reflexões pode fazer? Claro, com foco na temática que aqui nos traz, qual é o começo, o meio e o fim do PLH?

Começo se refere ao ponto de partida, à definição de valores, de metas, ao planejamento e à fundamentação. Demonstra a importância das experiências de base, na mais tenra infância, mas também a importância inerente da reflexão sobre essa prática educativa que pode ser tão própria quanto um estilo de vida e tão apaixonante quanto o desenvolvimento de um trabalho em uma iniciativa. Identificar os envolvidos nesse processo multidimensional, que levará muitos anos para demonstrar resultados, e seus papéis, é realmente só o começo.

+ Participe do Programa de Formação PLH para pais, professores e pesquisadores

É nesse momento também que olhamos para trás, para dentro e nos (re)conectamos com uma velha conhecida, nossa cultura, que, por sua vez, nos diz direitinho quem somos, apesar e mediante onde nascemos e onde vivemos. Familiarizados com passado e presente, passamos a perceber que para onde vamos tem prenúncios em cada atitude que tomamos. A forma como nos aculturamos no exterior, plástica ou flacidamente, em meio a nossa nova família, amigos, costumes e idioma, tem total relação com a forma como crescemos e como valorizamos nossas raízes.

Em meio a toda essa análise, surgem caminhos para desenvolver uma prática sobre a língua de herança, uma língua-identidade-cultura. Os meios pelos quais processos de criação de oportunidades, desenvolvimento de laços afetivos, de desejo de pertencimento são inúmeros. Através de um bom papo, de um abraço gostoso, de contar e ouvir histórias, causos, lamentos, piadas, de aulas, de shows, ao ouvir música, comer, brincar… todos os caminhos levam ao PLH. O meio não é só um ponto entre dois opostos, mas sim, uma ponte, um contexto, uma forma de ver a vida e por ela passar.

Em nosso caso, essa forma de ver a vida é um meio bilíngue, multilíngue, multicultural, diverso e claro, cheio de questionamentos, trocas, diálogos e negociações. O tempo de uma vida vai passando, quase tão rápido quanto um ano, e a gente vai curtindo, chorando, mas, sem remediar, tudo passa. E mesmo lembrando daquelas três palavrinhas mágicas – frequência, consistência e paciência – nem sempre se chega ao que se propôs (ou não) lá no começo.

O fim se aproxima. Um fim está sempre presente. Mas fim não é só a conclusão de um meio – é o laço de um ciclo. Outro abrir-se-á lá mesmo e, aos poucos, a finalidade de tudo o que fazemos vai ocupando um espaço cada mais central. Expande-se, transforma-se, avalia-se o investimento, recalibra-se as expectativas, os recursos, as oportunidades e, quando menos esperamos, está na hora de recapitular, com sorrisos e lágrimas, e de pular ondas e saudar o novo começo.

A cada ano que termina, me sinto um pouco assim, em (re)avaliação, em todos os aspectos possíveis e, posso só imaginar o que deve sentir um pai e uma mãe que começam a planejar como vão se sentir quando os filhos crescerem, partirem, criarem suas próprias vidas. Puxando de novo o rabo do PLH, compartilho com vocês uma grande emoção. No final da semana passada tive o privilégio de conhecer 2 falantes de herança que, hoje, estão no fim do que podemos pensar como uma formação dada em casa, por seus pais, mas brilhantemente ressoando os princípios que a eles foram dados em meio à toda uma vida e por isso, revelando o mais bonito dos momentos – o começo do começo.

+ Conheça o livro PLH: a filosofia do começo, meio e fim, uma publicação da editora BeM

Gustavo e Gabriel se depararam recentemente com a notícia de que são falantes de herança. Com humildade, amor e muita empatia, têm só a agradecer a seus pais e dão um recado àqueles que hoje se questionam se estão fazendo o melhor investimento. Veja só:

Aos pais do Gustavo e do Gabriel, uma salva de palmas. Parafraseando o grande Ziraldo, no fim esses meninos cresceram e viraram caras legais, legais mesmo.

 

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia é educadora e pesquisadora sobre o português como língua de herança. Fundadora da Brasil em Mente, é editora da Plataforma Brasileirinhos.
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Vem aí a 4CPLH!!

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A Brasil em Mente tem o prazer de anunciar a 4a edição da Conferência sobre o Ensino, Promoção e Manutenção do Português como Língua de Herança (4CPLH). Entre os dias 17 e 20 de maio de 2017, educadores, pesquisadores e outros profissionais ligados a esse campo de estudos, além de pais que desejam manter o Português como língua-cultura-identidade em seus contextos familiares, vão reunir-se em Nova Iorque. Para mais informações, visite a página do evento.

Estiveram na 3CPLH (realizada na New York University) os autores Susana Ventura e Daniel Munduruku, na 2CPLH (também realizada na New York University) a autora e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado e na 1CPLH (realizada no Consulado do Brasil em NY) a brasilianista Maxine Margolis. A data do evento é próxima a do Dia do PLH, comemorado em todo o mundo em 16 de maio.

Além da 4CPLH, a Brasil em Mente convida àqueles que se interessam pelo PLH a participarem do Simpósio 25 do VI SIMELP (Simpósio Mundial sobre o Ensino da Língua Portuguesa), evento que acontecerá entre 24 e 28 de outubro de 2017. A data de submissão de propostas de apresentação está próxima: 15 de novembro/2016. Não perca essa oportunidade! Pela segunda vez, o evento terá um simpósio todo dedicado à discussão do português como língua de herança e a coordenação é de Maria Célia Lima-Hernandes | Universidade de São Paulo; Maria João Marçalo | Universidade de Évora; Kátia de Abreu Chulata | Universidade de Pescara; Madalena Teixeira | Instituto Politécnico de Santarém/Universidade de Lisboa e Felícia Jennings-Winterle | Brasil em Mente, Nova York.

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A BEM convida-os também a participarem da 3a edição da LINCOOL – a revista eletrônica do PLH. O prazo para submissão de trabalhos é 1 de março de 2017.

 

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Heritage or investment?

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By Felicia Jennings-Winterle
Bilingual Education / Editorial

You probably already know that “Portuguese as Heritage Language” is the most used term in this platform. However, why “heritage”?

A language can have multiple statuses – mother, foreign, second or heritage language. It depends on the context and the importance it has in the speaker’s mind. Different terminologies may be used in different contexts (informal, academic, other countries). All of these statuses correspond to one’s knowledge and level of proficiency of an idiom, and the use of one or another term is related to the perceptions about multilingualism, multiculturalism, immigration, culture and language policy that one’s context holds.

A heritage language crosses oceans and borders and is transmitted from parents to their children, from grandparents to their grandchildren. It is a transference between generations of immigrants. Therefore, for a language to be an inheritance, someone, or a whole family, must have moved from one country to another, and wished to keep the cultural identity in addition to the local one in the new country of residence.

So, what does identity have to do with language? Everything. I doubt this to be a fact only of heritage languages, but such language is, indeed, a language-identity-culture.

Like any other definition, Heritage Language is a microcosm that represents a variety of intentions, actions and agendas. Within the studies of Portuguese as Heritage Language there is no consensus on every issue; let alone in regards to heritage languages as a whole.

There is an old and polemic discussion related to this terminology and its meaning – a heritage can be understood as a mark, a stereotype, a disadvantage, something primitive, a risk. For this reason, some people contest the term and suggest alternatives like “international language”, “family language”, “immigration language”, or even “mother tongue”.

You should assume that I do not agree with this perspective. However, we cannot go further without asking ourselves if our aim is to transmit a heritage or to make an investment. That is, of course, considering you want to transmit elements of your identity, values and perspectives in a minority language and have reflected about it.

Raising children inevitably implies the transmission of knowledge within generations since the origins of human beings. We not only carry our ancestors’ genetic code, but we take forward achievements, learning, success, mistakes, and ways of understanding and doing… culture. Language is culture. There is no other way to describe it. It is, therefore,  fundamental to understand, broadly and in depth, what language, culture and identity are.

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This triad and the perspective on what humanity means are complementary elements. The comprehension of the differences and similarities between us is facilitated when we understand what being human really is. This sounds cliché, doesn’t it? However, it is necessary to emphasize this: our origin reflects who we are (our heritage) and where we are going (our investments).

It is a heritage because when you speak to your son (or student) in your mother language, you connect him to other ways of being, speaking, eating, celebrating, believing.
It is an investment because when you offer the knowledge about another culture, you expand the repertoire of this hybrid generation and lead them to toward global citizenship.

It is not an immigration language because when an individual settles in a new society this displacement is only data, a statistic. In reality, immigrants or not, we all have different ways to represent ourselves and negotiate in a given context.

It is not a mother tongue, because, present as it might be between family and friends,  the plurality of our societies demands a fluent dialogue in the majority language, much more likely to present daily, diverse, and complete inputs. Our societies have multicultural compositions, therefor, all languages are, at this point in our history of globalization, international.  This is such an obvious fact that we know that about 7,000 languages are currently spoken around the world by at least one person, but the majority of people only speak 17.

With this data in mind, I redirect to the title of the article: ‘heritage or investment?’.

For those of us who recognize the specificities of profiles in a heritage language context and how they are presented in a spectrum, this term is clear, fair and appropriate. While we should promote the teaching and nurturing of minority languages, we should also demonstrate and aim for the specific benefits that a daily experience in more than one language brings to the sustainability of bilingualism.  We should be in search of real and global linguistic competence of our citizens.

Tradução: Camila Alves

Screen Shot 2015-10-20 at 8.49.02 PMFelicia researchers Portuguese as a Heritage Language and is the Founder and Educational Director of Brasil em Mente, the organization that maintains this platform.
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Herança ou investimento?

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Por Felicia Jennings-Winterle
Editorial, novembro de 2016.

Você já sabe que o termo mais escrito nesta plataforma e em todos os trabalhos da Brasil em Mente é o “português como língua de herança”. Mas, por que herança?

Uma língua pode ter muitos status, quer dizer, dependendo da importância que ocupa na mente e no contexto de seu falante, pode ser materna, estrangeira, segunda, de imigração, de herança. Em cada contexto (informal, acadêmico) usa-se mais ou menos uma certa terminologia. Todas elas têm a ver com o nível de conhecimento e proficiência em um idioma e claro, têm a ver com as visões locais (de diferentes países) sobre multilinguismo, multiculturalismo, imigração, cultura… as tais políticas linguísticas.

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