Por onde andam?

Por Michele Fernanda
Coluna Pelo Mundo

Desde 2012 a coluna Pelo Mundo vem trazendo diversas informações a respeito das iniciativas de Português como Língua de Herança. A cada ano mais e mais iniciativas embarcam na trajetória de manter a língua portuguesa viva na vida das famílias que se deslocam de seu país de origem.

Muitos que dizem que o movimento em prol do Português como Língua de Herança – PLH tem pipocado. Creio até sentir aquela vibração e euforia de iniciar um projeto em que acreditamos, mas o curioso mesmo é saber: por onde andam as iniciativas que tiveram a oportunidade de soprar algumas velinhas de aniversário? Como essas iniciativas têm crescido desde a primeira entrevista na coluna Pelo Mundo? Quais desafios persistem?

O ABCD dos Brasileirinhos trouxe a entrevista com a Association for Brazilian’s Children Bilingual Development, iniciativa lá da Austrália fundada em 1999. Revisitados nos contam que a motivação continua, mas o desafio da participação da família no uso e manutenção da língua portuguesa persiste.

Esse ano vão comemorar 20 anos de muita dedicação com um jantar de gala no dia 18 de maio. Laura Peclat, coordenadora pedagógica, conta que desde a primeira entrevista da coluna Pelo Mundo a iniciativa tem crescido muito com abertura de novas unidades, aumento de alunos e contratação de mais professores. Os resultados incluem alunos comprometidos e participando com entusiasmo. Os professores estão engajados planejando aulas dinâmicas, divertidas e interativas e capacitados por meio de encontros, palestras e workshops.

O desafio que ainda persiste é a diferença entre os níveis de aquisição da língua e a participação da família em relação a prática, uso e manutenção do PLH.

Laura Peclat afirma que a equipe mantém a motivação quando se depara com a curiosidade dos alunos, a vontade de aprender e a alegria deles ao apresentar uma tarefa feita em casa. “Os encontros realizados entre a equipe trazem sempre uma renovação para o desenvolvimento desde árduo projeto que é muito maior do que aprender ler e escrever, mas viver e aprender um pouco da cultura brasileira.” – diz Laura.

Coluna: Como é estruturada a questão financeira da iniciativa?
ABCD: 10% da nossa receita é proveniente da verba do governo da Austrália e 5% de doadores e anunciantes. O resto vem de cobranças das aulas de português e eventos. Desenvolvemos o nosso próprio material pedagógico (apostilas separadas por 4 níveis) que é cobrado como parte da fatura paga pelos pais. Este material traz uniformidade e proporciona aos professores mais tempo de elaborarem suas aulas a partir dos temas propostos.

Vale lembrar que um motivo de muito orgulho para a ABCD continua sendo a maravilhosa biblioteca composta de mais de mil livros no acervo!

“Este ano completamos 20 anos de dedicação, comprometimento, profissionalismo e amor. Um ano muito especial para nós, que já começou repleto de comemorações em todas as Unidades,” diz Laura entusiasmada.

 

Mala de Herança em Tirol
Tem também  sua trajetória  compartilhada na coluna Pelo Mundo e continua movendo montanhas para o aprendizado e manutenção do PLH.

A diretora da iniciativa Julliane de Oliveira Rüdisser revela como a iniciativa vem crescendo: “Ampliamos nossas atividades, temos um playgroup, oferecemos aulas de POLH nas escolas da rede pública da nossa região (atualmente temos 3 turmas), nossa oferta cultural é regular e de muita qualidade. Temos a maior biblioteca na língua portuguesa aqui na Áustria e já ultrapassamos 800 títulos. Oferecemos cursos e workshops de formação sobre o bilinguismo, multilinguismo etc.”

A motivação para liderar as atividades nem sempre é a mesma. “Já houveram momentos onde considerei desistir. O importante é não esquecermos de cuidar de nós mesmo, das nossas necessidades e objetivos. Me ajudou muito encontrar pessoas com a mesma vibe e me aliar com elas”.

Coluna: Quais resultados que têm visto?
Juliana: Um aumento no número de famílias atendidas. Um melhor desempenho escolar em geral nas crianças que usufruem da nossa oferta. Um maior grau de identificação com a língua e cultura.

Os desafios? Combater os mitos relacionados ao bi/multilinguismo e a falta de interesse e apoio do governo brasileiro. Não recebemos patrocínios e nem doações. Nosso trabalho é 100% voluntário e gastos materiais são pagos com arrecadações de alguns eventos cobrados (Festa Junina, Carnaval etc).

É interessante notar que mesmo soprando velinhas (por tanto tempo!) estas iniciativas perduraram mesmo em meio a tantos desafios. A comunidade online vem crescendo a todo vapor, criando assim oportunidades para que essas iniciativas troquem ideias, experiências e informações. Perante os desafios, vale refletir: quais são os papéis dos envolvidos que promovem, informam e incentivam a língua de herança? Cabe a quem (mesmo) manter a língua de herança?

Esteja sua iniciativa celebrando 20 anos, 5 anos ou 6 meses, sabemos que os desafio são constantes e o caminho é árduo. Mas sabemos também que o resgaste dos valores culturais é fundamental para a formação do indivíduo e que sua identidade está naturalmente ligada à sua língua-cultura. Garantir a valorização da língua portuguesa como língua de herança, é garantir que os valores culturais ligados à essa língua perduram. Parabéns à todas as iniciativas que sequem em frente independente dos desafios. Vida longa à língua portuguesa!

 

COLUNISTA NOVA: MICHELE FERNANDA

Fundadora da comunidade Saudade-PLH na Rep Tcheca e do projeto Lá vem a história! , sua paixão pela Educação Infantil não é diferente da de ser mochileira, de tricotar durante os dias de inverno e de uma cozinha cheia de amigos enquanto se compartilha uma boa taça de vinho. Além de dedicar seu tempo com trabalhos voluntários, ela ama todas as formas de papel, andar de bicicleta e cartas inesperadas na caixinha de correio. Ela explora Praga com seu filho, é gerente de comunidade do grupo Girl Gone International | Prague, é professora na Escolinha Portuguesa de Praga, contadora de histórias para a organização Class Acts e aprende alemão quando sobra alguma hora “vaga”.

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O que acontece quando se junta o Portunhol com o Espanguês?

Por Carla Scheidegger
Coluna Pelo Mundo

EspanhaQuais são as vantagens e os desafios do ensino de PLH em países de língua espanhola? No Brasil, muitas pessoas afirmam falar Portunhol com certo orgulho, como se isso fosse algo positivo. Porém, pessoas que vivem em países de língua espanhola nem sempre veem isso da mesma forma. Pelo Mundo desse mês traz uma entrevista com as coordenadoras da iniciativa Brasileirinh@s em Málaga – Fátima Lobão Fernanda Rotondaro da Silveira, Lisa Rech e Sandra Sainz Fernández – sobre o ensino de PLH a crianças que tem como língua dominante o espanhol.

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Carla Scheidegger > Bom dia, meninas. Outro dia estava conversando com uma amiga que aprende latim e pensei em traçar um paralelo entre a língua dominante espanhola e o aprendizado de PLH. Na percepção de vocês, quais são as VANTAGENS para as crianças que falam espanhol no aprendizado de PLH?

Brasileirinh@s em Málaga >> Das línguas românicas, o português e o espanhol são as línguas com mais semelhanças e isso pode fazer com que as crianças tenham alguma vantagem no aprendizado de PLH. As semelhanças morfológicas, sintáticas, semânticas e fonéticas das duas línguas fazem com que elas consigam avançar rapidamente no processo de aprendizado. Tivemos um relato de uma mãe que dizia que os filhos até lá pelos 4 anos, pensavam que se tratava da mesma língua. Costumamos dizer aos alunos de PLE (Português como Língua Estrangeira) que são hispano-falantes que saber espanhol é saber 85% da Língua Portuguesa. No caso das crianças que possuem o Português como Língua de Herança, esta porcentagem ajuda bastante! No geral, para elas é fácil entender a língua – a maioria entende tudo (ou uma grande parte).

Carla > Se falar espanhol como língua dominante pode facilitar no entendimento da língua portuguesa, quais seriam as DIFICULDADES no aprendizado de PLH?

Brasileirinh@s em Málaga >> Talvez o principal desafio consista justamente em separar o que é espanhol do que é português e, principalmente, o fato de que nem sempre as famílias conseguem falar exclusivamente em português. Assim, misturam as duas línguas e acabam se comunicando no nosso “inimigo” portunhol. Inimigo porque a proximidade das línguas é tanta que, às vezes, é realmente de forma inconsciente que mães ou pais (ou casais) brasileiros falam portunhol achando que estão falando português. As crianças, se nascidas aqui na Espanha e quase sem contato com a língua portuguesa através das famílias, podem achar perfeitamente que o “portunhol” e o português são a mesma coisa. Segundo nos contam algumas famílias, outro grande desafio é enfrentar o “NÃO pertencer” a um grupo social quando falam português somente com os pais. Os amigos os consideram estranhos por terem pais que falam outra língua. Eles têm que estar constantemente se justificando.

Carla > E quais seriam os DESAFIOS enfrentados pelos pais e como eles lidam com eles?

keep-calm-hablo-portunholBrasileirinh@s em Málaga >> Alguns pais confessam ter dificuldade em comunicar-se exclusivamente em português na presença dos filhos, porque a maioria passa grande parte do dia falando espanhol. Outros admitem, inclusive, serem incapazes de falar português. Há os que assumem que escorregam no “portunhol”. Algumas pessoas manifestam que sentem vergonha de falar a língua portuguesa com suas crianças na frente de espanhóis. Já outros que falam português, revelam sofrer certo preconceito por parte de espanhóis. Por fim, os pais que conseguiram estabelecer a língua portuguesa como única com as crianças e afirmam que não teriam outra forma se relacionar afetivamente com os filhos.

 
Carla > Outro dia conversei com a diretora de uma organização que ensina alemão como segunda língua aqui na Alemanha e mencionei “língua de herança”. Os olhos dela brilharam porque ela não conhecia este termo e logo entendeu seus significado. Na opinião de vocês, por que as famílias que vivem em Málaga deveriam investir esforços com o PLH, se falar espanhol, portunhol ou espanguês ja é mais do que meio caminho andado para o entendimento do Português?

Brasileirinh@s em Málaga >>  As famílias que participam do “Brasileirinhos em Málaga”, na sua maioria, afirmam querer transmitir não apenas a língua mas também todo o referente aos costumes, tradições, cultura etc. Acreditamos que os pais e as mães que procuram o “Brasileirinhos em Málaga” são conscientes da necessidade de que as suas crianças se relacionem com outras das mesmas características e esta é a primeira forma de enfrentar os desafios. Para muitas destas famílias é fundamental que as crianças tenham um espaço onde o português deixe de ser apenas a língua que se fala em casa (pelo pai, pela mãe ou por ambos) e que passe a ter valor para as suas crianças na formação como pessoa, que poderá se relacionar com familiares tanto no Brasil como aqui na Espanha quando vierem de visita. Poder proporcionar situações nas quais as crianças se encontrem e vivam experiências com outras crianças nas me
smas situações que elas é muito enriquecedor para todos os membros da família, e principalmente, um fator fundamental para o desenvolvimento da autoestima da própria criança.

+ Assista aqui ao vídeo dos Brasileirinh@s em Málaga no projeto Dona Terra.

Carla > Se vocês pudessem deixar uma frase de INCENTIVO ao ensino e aprendizado de PLH nos países de língua espanhola, qual seria?

Brasileirinh@s em Málaga >> Por mais que a tarefa seja difícil, pensem na satisfação de, no futuro, as crianças reconhecerem o valor desta herança. A recompensa deste esforço vem ao ver crianças, que em muitos casos nunca foram ao Brasil, se identificarem com a cultura e conversarem c
m outras pessoas brasileiras de igual para igual. Aconselhamos aos pais serem constantes e perseverantes na manutenção da língua e cultura, dar acesso a livros, músicas, objetos, filmes etc. Ter em casa um pouquinho do nosso Brasil, mesmo que simbolicamente!

Carla > Obrigada!
Brasileirinh@s em Málaga >>O prazer foi todo nosso em poder participar nesta entrevista!

 

 

Screen Shot 2016-02-16 at 7.27.27 AMNascida em São Paulo e criada no interior paulista, herdou a língua e a cultura alemãs dos meus pais. Estudou Comunicação Social na ESPM e pós-graduei na Fundação Getúlio Vargas, sempre com a certeza de que meu futuro seria longe do Brasil. Há 13 anos vive na Alemanha, trabalhando internacionalmente e valorizando cada vez mais a diversidade.

 

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Movendo montanhas para o aprendizado e manutenção do PLH

Por Carla Scheidegger
Coluna Pelo Mundo

AustriaNesse mês conversei com Julliane Rüdisser – idealizadora da Mala de Leitura do Tirol – que, como muitas das mulheres envolvidas em trabalhos em prol do PLH, foi viver no Tirol austríaco levada por um grande amor.

O Tirol é uma região da Áustria. Faz fronteira com a Alemanha ao norte e com a Itália e a Suíça ao sul. Montanhas grandiosas com picos nevados, boa cozinha e os cristais Swarowksy fazem parte de um cenário de tirar o fôlego. Innsbruck é sua capital e onde vive Julliane. Continuar lendo “Movendo montanhas para o aprendizado e manutenção do PLH”

Returns

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By Carla Scheidegger
Around the World Column

Since my last trip to Brasil in March of this year, I have been reflecting about what “returning” to the place where I was born and grew up does to me and my family, as well as the what are the implications to our daily life. To help me in this somewhat philosophical matter, I spoke to Andreia Moroni, a researcher dedicated to study Portuguese as a Heritage Language within the Brazilian community in Catalonia (Spain). In our chat we made some discussions on the the different meanings of the word “return” and would like to share them with you.

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Retornos

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Por Carla Scheidegger
Coluna Pelo Mundo

Desde minha última viagem ao Brasil, em março deste ano, tenho refletido sobre o que o “retorno” ao país onde nasci e cresci gera em mim e em minha família, bem como de que forma ele se manifesta em nosso dia-a-dia. Para me ajudar nesta questão um pouco filosófica, conversei com Andreia Moroni*, pesquisadora sobre o português como língua de herança na comunidade brasileira da Catalunha para seu doutorado em Linguística Aplicada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em nosso bate-papo, traçamos um paralelo entre os diferentes significados da palavra “retorno” e o PLH.

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