Os monolíngues e os bilíngues

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Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Uma prática muito comum nos estudos e reflexões a respeito do bilinguismo é a comparação de bilíngues com monolíngues; uma comparação quase que natural para nós brasileiros, uma vez que estamos mais habituados a pensar na aquisição de linguagem no “modo” monolíngue. Com o crescimento do processo de aquisição bilíngue, estamos tendo cada vez mais estudos e pesquisas voltados para essa área e, portanto, estamos conhecendo cada vez mais sobre o universo bilíngue.

Com mais informações sobre o que acontece no processo de aquisição bilíngue, devemos começar a nos perguntar: até que ponto podemos ou devemos estabelecer comparações entre o desenvolvimento de linguagem de monolíngues e bilíngues? Quando pensamos nas habilidades de linguagem dos bilíngues, por que mesmo atualmente o monolíngue continua sendo tomado como norma?

Fato é que padrões monolíngues de aquisição de linguagem costumam ser tomados como ponto de referência para um “julgamento” sobre as produções de fala bilíngues. Inúmeros estudos insistem nas diferenças entre monolíngues e bilíngues como se elas fossem inesperadas, e colocam o monolinguismo como referência, como se o monolinguismo fosse algo excepcional (CRUZ-FERREIRA, 2014). Para Cruz-Ferreira (2014), uma fala “saudável” não se refere à fala de um dialeto padrão e também não se refere à fala monolíngue.

Assim, a questão é: com base em que padrões estamos avaliando os bilíngues?

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Erros fazem parte do processo de aquisição de linguagem tanto monolíngue quanto bilíngue, e são excelentes pontos de referência sobre o caminho que as crianças percorrem nesse processo. No entanto, é adequado comparar os erros de monolíngues e bilíngues?

Depende. Se a proposta é detectar diferenças existentes entre monolíngues e bilíngues com o objetivo de melhor compreender cada um deles de forma distinta, então sim, temos um olhar adequado para as especificidades de cada processo. Estudos dessa natureza trazem excelentes informações, por exemplo, para professores que lidam com alunos monolíngues e bilíngues numa mesma sala de aula.

No entanto, se a proposta do estudo é comparar monolíngues e bilíngues com o objetivo de chegar a rápidas conclusões a respeito do bilinguismo usando o monolinguismo como norma, como referência, temos um exemplo de uso inadequado dos dados.

A avaliação da aquisição de linguagem bilíngue deve ter como ponto de referência um padrão bilíngue. Deve-se reconhecer no entanto que, devido ao incentivo e a valorização do bilinguismo serem relativamente recentes, um problema que ainda encontramos é a falta de estudos consistentes sobre padrões de aquisição bilíngue. No caso do Português, em particular, a literatura sobre aquisição bilíngue que envolve o Português como um de seus pares é bastante escassa.

Mesmo assim, é simples compreendermos que bilíngues vão apresentar erros diferentes de monolíngues pelo fato de estarem imersos em um processo distinto. Para Jackson-Maldonado (2004), o fato de os erros serem diferentes daqueles apresentados por monolíngues não significa que constituam um problema de linguagem. O autor afirma que muitos erros têm sido considerados como um sinal de distúrbio de linguagem quando eles deveriam ser interpretados como uma manifestação do processo normal de aquisição bilíngue.

Na verdade, ao acompanharmos o processo de aquisicão de linguagem bilíngue, alguns tipos de erros devem ser esperados. Por exemplo: a distinção “ser/estar” pode ser em algum momento do processo de aquisição afetada pelo contato com outra língua que não apresenta a mesma distinção (JACKSON-MALDONADO, p. 155, 2004), como é, por sinal, o caso do bilinguismo Português/Inglês.

A ideia geral é de que seria “ingênuo” esperar que o processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem bilíngue seguisse o mesmo percurso que de crianças monolíngues. Sim, precisamos de mais estudos e pesquisas para melhor compreender o universo bilíngue, mas desde já podemos perceber como que a comparação “monolíngues vs bilíngues” deve ser sempre feita com muito cuidado, buscando o entendimento de características de cada um desses processos, sempre deslocando e desestabilizando o monolinguismo do posto de norma ou referência para a aquisição da linguagem.

Referências Bibliográficas
CRUZ-FERREIRA, M. Accent, dialect, or disorder? Being Multilingual, Fevereiro/2014. Disponível em:
http://beingmultilingual.blogspot.com/2014/02/accent-dialect-or-disorder.html
JACKSON-MALDONADO, D. Verbal Morphology and Vocabulary in Monolinguals and Emergent Bilinguals. In: GOLDSTEIN, B. A. Bilingual Language Development & Disorders in Spanish-English Speakers, 2004, p. 131-161.

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

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