O aprendizado de várias línguas

Texto original publicado em francês pelo site Naître et Grandir e traduzido para o português por Fernanda Aguilar (contribuinte do mês para o blog Brasileirinhos)

Sempre ouvimos que as crianças são como esponjas e que podem facilmente aprender outras línguas. É verdade, desde que elas sejam expostas a contextos variados e motivadas a aprender.

O desenvolvimento da linguagem de crianças expostas à duas línguas
O período pré-escolar é propício à aprendizagem de línguas por causa da capacidade de adaptação do cérebro da criança. Além disso, crianças pequenas distinguem e reproduzem os sons mais facilmente. Isso permite que elas falem sem sotaque.

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Perfil e Opinião: Ser pai de criança bilíngue não é tarefa fácil

Por Ingrid Helena
Perfil e Opinião

Ser pai de uma criança bilingue não é uma tarefa fácil. As críticas surgem muitas vezes já na gravidez. Na hora de mandar o filho para a escola, nem sempre você encontrará uma escola e professores com o devido preparo pedagógico para lidar com crianças bilíngues. Ignorância no assunto, falta de vontade e muitas vezes comodismo atrapalham um processo de aprendizagem da qual a criança é a maior beneficiada.

Eu sou brasileira, meu marido e meu filho são holandeses e no momento moramos na Bélgica, perto de Maastricht na Holanda. Aqui em casa falamos 3 idiomas: português entre eu e meu filho, holandês entre meu marido e meu filho, e inglês entre eu e meu marido. Com nosso filho não falamos inglês, mas como ele sempre nos ouviu falar em inglês e os programas na tv aqui não são dublados (exceto desenhos infantis) ele entende tudo que falamos.

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Os monolíngues e os bilíngues

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Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Uma prática muito comum nos estudos e reflexões a respeito do bilinguismo é a comparação de bilíngues com monolíngues; uma comparação quase que natural para nós brasileiros, uma vez que estamos mais habituados a pensar na aquisição de linguagem no “modo” monolíngue. Com o crescimento do processo de aquisição bilíngue, estamos tendo cada vez mais estudos e pesquisas voltados para essa área e, portanto, estamos conhecendo cada vez mais sobre o universo bilíngue.

Com mais informações sobre o que acontece no processo de aquisição bilíngue, devemos começar a nos perguntar: até que ponto podemos ou devemos estabelecer comparações entre o desenvolvimento de linguagem de monolíngues e bilíngues? Quando pensamos nas habilidades de linguagem dos bilíngues, por que mesmo atualmente o monolíngue continua sendo tomado como norma?

Fato é que padrões monolíngues de aquisição de linguagem costumam ser tomados como ponto de referência para um “julgamento” sobre as produções de fala bilíngues. Inúmeros estudos insistem nas diferenças entre monolíngues e bilíngues como se elas fossem inesperadas, e colocam o monolinguismo como referência, como se o monolinguismo fosse algo excepcional (CRUZ-FERREIRA, 2014). Para Cruz-Ferreira (2014), uma fala “saudável” não se refere à fala de um dialeto padrão e também não se refere à fala monolíngue.

Assim, a questão é: com base em que padrões estamos avaliando os bilíngues?

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Erros fazem parte do processo de aquisição de linguagem tanto monolíngue quanto bilíngue, e são excelentes pontos de referência sobre o caminho que as crianças percorrem nesse processo. No entanto, é adequado comparar os erros de monolíngues e bilíngues?

Depende. Se a proposta é detectar diferenças existentes entre monolíngues e bilíngues com o objetivo de melhor compreender cada um deles de forma distinta, então sim, temos um olhar adequado para as especificidades de cada processo. Estudos dessa natureza trazem excelentes informações, por exemplo, para professores que lidam com alunos monolíngues e bilíngues numa mesma sala de aula.

No entanto, se a proposta do estudo é comparar monolíngues e bilíngues com o objetivo de chegar a rápidas conclusões a respeito do bilinguismo usando o monolinguismo como norma, como referência, temos um exemplo de uso inadequado dos dados.

A avaliação da aquisição de linguagem bilíngue deve ter como ponto de referência um padrão bilíngue. Deve-se reconhecer no entanto que, devido ao incentivo e a valorização do bilinguismo serem relativamente recentes, um problema que ainda encontramos é a falta de estudos consistentes sobre padrões de aquisição bilíngue. No caso do Português, em particular, a literatura sobre aquisição bilíngue que envolve o Português como um de seus pares é bastante escassa.

Mesmo assim, é simples compreendermos que bilíngues vão apresentar erros diferentes de monolíngues pelo fato de estarem imersos em um processo distinto. Para Jackson-Maldonado (2004), o fato de os erros serem diferentes daqueles apresentados por monolíngues não significa que constituam um problema de linguagem. O autor afirma que muitos erros têm sido considerados como um sinal de distúrbio de linguagem quando eles deveriam ser interpretados como uma manifestação do processo normal de aquisição bilíngue.

Na verdade, ao acompanharmos o processo de aquisicão de linguagem bilíngue, alguns tipos de erros devem ser esperados. Por exemplo: a distinção “ser/estar” pode ser em algum momento do processo de aquisição afetada pelo contato com outra língua que não apresenta a mesma distinção (JACKSON-MALDONADO, p. 155, 2004), como é, por sinal, o caso do bilinguismo Português/Inglês.

A ideia geral é de que seria “ingênuo” esperar que o processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem bilíngue seguisse o mesmo percurso que de crianças monolíngues. Sim, precisamos de mais estudos e pesquisas para melhor compreender o universo bilíngue, mas desde já podemos perceber como que a comparação “monolíngues vs bilíngues” deve ser sempre feita com muito cuidado, buscando o entendimento de características de cada um desses processos, sempre deslocando e desestabilizando o monolinguismo do posto de norma ou referência para a aquisição da linguagem.

Referências Bibliográficas
CRUZ-FERREIRA, M. Accent, dialect, or disorder? Being Multilingual, Fevereiro/2014. Disponível em:
http://beingmultilingual.blogspot.com/2014/02/accent-dialect-or-disorder.html
JACKSON-MALDONADO, D. Verbal Morphology and Vocabulary in Monolinguals and Emergent Bilinguals. In: GOLDSTEIN, B. A. Bilingual Language Development & Disorders in Spanish-English Speakers, 2004, p. 131-161.

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

Brasil, um país plurilíngue?

Por Andreia Moroni

Você, que mora aí nesse mundão estrangeiro, já se sentiu coibido, censurado, recriminado por falar português quando todo mundo ao seu redor parecia preferir ou esperar que você falasse outra língua?

Como você se sentiria se fosse expressamente proibido de falar a sua língua e tivesse que usá-la escondido, aos sussurros, entre quatro paredes e sempre temendo ser denunciado por vizinhos rabugentos?

Brasileiro tem fama de hospitaleiro. Também de valorizar tudo o que vem de fora, qualquer lugar parece ser melhor, mais desenvolvido e menos problemático que o Brasil. Mas, em algumas questões relacionadas ao uso de várias línguas, somos (e fomos) bastante chauvinistas, conservadores, zelando pelo orgulho próprio.

Você sabia que durante a era Vargas (1930-1945) nesse nosso Brasil que tanto imigrante recebeu (e todo mundo tem aquela pontinha de orgulho ao se declarar neto ou bisneto de italianos, alemães, espanhóis, poloneses – e a lista é longa) houve uma verdadeira proibição de que essas comunidades usassem suas línguas? Encontrei este depoimento, mencionado num artigo do professor Cléo Vilson Altenhofen, da UFRGS, o qual vi falar ao vivo mês passado em um congresso sobre esses temas que a gente adora, e gostaria de dividi-lo com vocês:

“O clima era de terror. Ninguém tinha coragem de falar em público com medo de ir para a cadeia. Nessa tal de nacionalização queriam que todos falassem português da noite para o dia. Prenderam até velhos que nada queriam com a política só porque falavam alemão em público. Mas antigamente o governo não proibiu falar alemão, não providenciou escolas ou coisas semelhantes, que ensinasse as pessoas o português. Agora, depois de todos esses anos de indiferença, queriam que a gente falasse português sem sotaque.”

Vocês já pararam para pensar que, diferente do que prega o senso comum, no Brasil não se fala só português, embora essa seja a única língua oficial do país? Sim, sim, é óbvio, vocês vão pensar nas muitas línguas usadas pelos povos indígenas em território brasileiro, mas sabiam que outros tantos idiomas de imigração continuam sendo falados mais de cem anos depois que os primeiros estrangeiros que a trouxeram chegaram aqui?

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Eu adoro este delicioso relato postado pela Claudia Storvik no blogue Filhos Bilíngues contando uma viagem de seu pai, já adulto, à Polônia: ele cresceu numa colônia polonesa do Paraná e só foi aprender português quando entrou na escola, aos sete anos de idade.

Mas qual é o ponto de falar de línguas de imigração no Brasil e português como língua de herança no mundo? No final, há tanta coisa parecida entre essas duas situações que seria um desperdício não observar o passado com um olhar sensível em busca de um aprendizado: tanta gente aqui na luta para transmitir o português aos filhos no exterior e é no mínimo incrível que essas línguas de imigração perdurem há três gerações ou mais num país monoliticamente monolíngue como o Brasil. Eu me pergunto: como isso acontece?

Só que não é só isso. A gente vai tentando devagar e aos pouquinhos trazer pra mesa discussões importantes sobre políticas linguísticas (por favor, não faça como eu, que tenho preguiça mental sempre que ouço a palavra “política”, juro que não vou falar de partidos ou presidentes, aqui o termo quer dizer outra coisa). Basicamente, para abrir espaço para que as famílias, grupos e associações que promovem o português como língua de herança (POLH) possam existir mundo afora, exercer seus ideais e, por que não, buscar reconhecimento e apoio oficial (leia-se: do governo, institucional) para suas atividades.

Por um lado, tudo vai ficando mais fácil se os simpatizantes-leitores dessa causa entendem melhor como é isso de ter filhos bilíngues, suas necessidades educacionais, o espaço das línguas e seu funcionamento na sociedade – daí a importância do trabalho de toda a equipe que mantém este blogue: a gente quer dividir com vocês coisas que nos deu um trabalhão descobrir.

Por outro, no momento em que as discussões e movimentos pelo POLH começam a se articular, nosso olhar também deveria estar atento às questões das línguas de imigração no Brasil. Eu, pessoalmente, acho que o passado delas pode ter muita relação com nosso futuro – não só no que diz respeito à transmissão de um idioma dentro de casa, mas porque, no final, os pais de brasileirinhos do mundo estão educando crianças multilíngues, que falam outras línguas além do português, e seria ao menos gentil que o patrimônio linguístico desses cidadãos brasileiros em formação fosse respeitado. Além do mais, tanto no caso das línguas de imigração no Brasil como do português como língua de herança no mundo estamos falando de brasileiros multilíngues, seus direitos e manutenção da língua materna. No fim das contas, somos farinha do mesmo saco, e gostaria de imaginar resultados culinários promissores a partir dessa mistura.

Planejamento linguístico + políticas linguísticas familiares, muito prazer

Por Andreia Moroni. Post #150

Para nós, homines e mulieres sapientes brasileiros que provavelmente crescemos monolíngues, é possível que as línguas diferentes da “materna” sejam tudo a mesma coisa: língua estrangeira lá no nosso balaio de gatos. E que não fique tão claro assim por que o português que a gente ensina pro filho, que mora e cresce no exterior conosco, falando também a língua desse outro lugar, não é exatamente uma língua estrangeira (como a gente gosta de chamar por aqui, isso é “português como língua de herança”, PLH).

Embora aparentemente “estrangeiras”, no sentido de ser de um outro lugar que não aquele em que a gente está, “língua de herança” e “língua estrangeira” não são a mesma coisa. E quem está tratando de aprendê-las tem necessidades bastante diferentes nos dois casos.

Imagine que você resolveu fazer um curso de língua estrangeira, vamos radicalizar e pensar que você quer aprender russo, chinês ou sueco. E na verdade não sabe lá grandes coisas do povo ou cultura desses países. Você começa a frequentar duas vezes por semana uma aula de uma hora e meia e vai aprendendo, aos poucos e tudo ao mesmo tempo, a ler, escrever, falar, escutar, a gramática e as expressões idiomáticas, com pinceladas de informação cultural que vão te explicando como são os hábitos das pessoas que vivem nesses lugares.

Para alguém que quer aprender ou melhorar sua proficiência em sua língua de herança, esse esqueminha não é o melhor dos mundos. No pior dos casos, o aprendiz de língua de herança já costuma trazer uma bagagem importante de compreensão oral dessa língua (mesmo que não a fale), se sai melhor no listening e também na produção oral e traz muita, muita informação cultural sobre os usos e práticas dessa língua e cultura, não raramente achando um absurdo a maneira estereotipada como essa cultura que ele conhece tão bem e traz no coração é retratada nos livros didáticos.

O que tenho observado e pesquisado são as iniciativas existentes ao redor do mundo para a manutenção do PLH com a criançada. Esses projetos parecem ter muitos pontos em comum e espero um dia poder coletar informações suficientes para corroborar essa hipótese (adoraria receber convites para fazer trabalho de campo em todos esses lugares, se você que está lendo souber de uma dica preciosa sobre como pedir um apoio para viabilizar essa empreitada no seu país, me conte!).

Em primeiro lugar, esses projetos de aulas e encontros em português são uma extensão da vontade das famílias. Os projetos surgem por iniciativa de um grupo de pais preocupados com que seus filhos aprendam o português (e, consequentemente, também a cultura do Brasil). Não é o Itamaraty, o MEC do Brasil, a prefeitura da cidade ou o governo federal do seu país estrangeiro que resolveu dar o pontapé inicial na ideia, embora todo apoio seja bem-vindo e muitos países sejam receptivos à ideia e deem sua ajudinha, à qual muito agradecemos.

Isso quer dizer que a vontade de que as crianças aprendam português já vem de dentro de casa, e o hábito de se falar português costuma ser uma realidade que faz parte das famílias.

     Juntando uma coisa com outra, a formulinha vai mais ou menos assim: as crianças já estão em contato com a língua e falando alguma coisa de português, chegam nas aulas e a grande sacada não é só a aula em si (momento formal de aprendizagem), mas o mundo de possibilidades que se abre por elas estarem em contato com outras crianças na mesma posição, além de toda a comunidade de falantes que está ao redor – os demais pais, professores, simpatizantes e toda a vida social que brota dali, de um piquenique ou convite para brincar com os amigos às festas de carnaval, festas juninas e por aí vai. A língua deixa de ser algo que acontece só em casa e com os pais e passa a ter uma função social, é através dela que se dão todas essas vivências e esse aprendizado cultural: ela passa a ter uma função real pra criança.

O papel das aulas entra, principalmente, se o que se deseja é que a criança seja um usuário proficiente da língua lida e escrita (o que chamam de literate, em inglês). Existem outros caminhos de construir esse aprendizado (muitos corações de gratidão e inspiração para exemplos como o da Claudia Storvik aqui, aqui e aqui, mas se você tem a possibilidade de contar com uma proposta formal de aprendizagem aí onde está, eu não a desconsideraria.

Sempre vai ser mais fácil chegar na biliteracy se a criança já tiver um bom domínio oral da língua antes de entrar na parte de leitura e escrita. Daí a relevância de todo aquele trabalho que começa no berço. E, olha, se você pensa nisso desde que estava grávida, parabéns, você não é só uma mãe coruja preocupada e exagerada: você tem uma postura ativa em relação ao planejamento linguístico da sua prole e provavelmente está colocando seu grãozinho de areia na política linguística familiar e da comunidade brasileira à qual pertence.

família

Porque tudo isso, decidir falar português em casa, levar o filho nas aulas e encontros, ajudar a organizar a festa junina (ajudem, ajudem, dá um trabalhão, sempre tem alguma coisinha pra fazer que não vai ocupar todo o seu tempo do mundo), ler livrinho em português, assistir um milhão de vezes aos clipes da Galinha Pintadinha, é planejamento linguístico e faz parte de uma política linguística. Mesmo que seja sua e da sua família, e não de toda a nação brasileira da diáspora. Política e planejamento não precisam ser macro e acontecer em grande escala pra ser efetivos e (surpresa!) estão aí mesmo que você não se dê conta.

Para quem quiser sair da caverna e participar das atividades de algum grupo que trabalha pelo PLH, convidamos a clicar aqui e conhecer algumas iniciativas ao redor do globo. Você conhece alguma que ainda não está no mapa?
Conte para nós, será um prazer incluí-la.