Brincando de brasileirar

Por Keiko Shikako-Thomas, PhD

Este é o post número 100 deste blog que tem por objetivo celebrar a riqueza e os desafios de criar brasileirinhos fora das terras Tupiniquins. Brasileirinhos que crescem, brincam, interagem com amiguinhos em línguas diversas, que comem sanduíche de “peanut butter and jelly” e pão de queijo, que se acostumaram a receber convites de festa de aniversário com hora de começar e hora de acabar (e que, vai entender, de fato começam e acabam naquela hora), que cantarolam “The Itsy Bitsy Spider” pelos corredores da escola, mas que reparam na dona aranha que subiu pela parede de casa. Celebramos brasileirinhos que tem a oportunidade de ser bilíngues, multilíngues. De falar, sem pensar, uma língua que você, como pai ou mãe, ainda pensa pra falar, mas que ao mesmo tempo, tem a oportunidade única de falar, também sem pensar, a mesma língua que você falava sem pensar com seus pais.

Este post também celebra o brincar, brincar como requisito essencial para o desenvolvimento, brincar como direito de toda criança, brincar como fonte de prazer, brincar como fonte de aprendizado. E nada melhor do que celebrar falando da importância do brincar para “brasileirar”, mas o quê?

Que jogue a primeira pedra a mãe ou pai, que morando fora do Brasil, nunca se pegou (ou ainda nem se deu conta que estava) brincando de “ini ,mini, miny, moe” ao invés de “minha mãe mandou eu escolher este daqui…” ou que na correria matinal pra sair de casa saiu falando: “ Fulaninho, come on!!! Let’s go!” ao invés de “Bora, bora, bora!”?

A verdade é que falar a sua língua materna não é difícil. Você, como pai ou mãe provavelmente faz isso desde que tem 1 ano. E portanto, não deveria ser difícil para nossos filhotes também. Brincar, coincidentemente, também não é difícil, já que é espontâneo para toda criança.

Mas língua não é só palavra, é também cultura, folclore, história, tradição e não por coincidência, estes também são elementos essenciais do brincar!

Ou seja, no frigir dos ovos, língua e brincadeiras podem andar de mãos dadas! Mas como que vale a pena e que tange educação, para fazê-lo, é preciso propósito e algum planejamento antecipado.

Já falamos aqui que brincar é coisa séria, e sobre alguns elementos importantes do brincar. No entanto, é muito fácil esquecer destas coisas no dia-a-dia corrido de cada família, e ir escorregando aqui e ali umas misturinhas, que podem, a longo termo, tornar nossos brasileirinhos, verdadeiros “gringuinhos”.

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É claro que ter a oportunidade de usufruir de serviços como os da Brasil em Mente (falo com “ inveja” de quem mora em NYC e pode ter aulas de português e musicalização em Português) faz a tarefa de qualquer pai de criança bilíngue mais fácil. Mas cada família pode sim incorporar brincadeira e bilinguismo no cotidiano.

Pesquisas apontam que qualquer criança elege como passatempo preferido o tempo gasto em atividades lúdicas com os pais. Não por acaso, o maior potencial de desenvolvimento reside também nas interações entre pais e filhos, onde o afeto abre os caminhos para  a aprendizagem e absorção de conceitos. E se nós pudermos então incorporar elementos da nossa cultura, com propósito, dentro de cada momento espontâneo, não só estaremos criando oportunidades de conexão e desenvolvimento do relacionamento pais-filhos, mas também poderemos criar oportunidades de aumentar o “brasileirismo” de nossos filhotes, e desenvolver a língua, a nossa língua.

Pense no que mais te fazia feliz quando criança: achar formas em nuvens durante uma longa viagem de carro, jogar memória “verbal” (aquele que uma pessoa fala uma palavra, e a próxima tem que falar aquela palavra e mais uma, acrescentando à lista consecutivamente), brincar de vôlei com um balão da festa de aniversário no dia seguinte em casa, contar quantos hidrantes existem no caminho de casa até a escola, andar “sem pisar na linha” na calçada, achar todos os carros azuis em um dado percurso, ver quantos tipos de folhas de formas diferentes você encontra durante um passeio no parque. Estes são apenas alguns exemplos de brincadeiras espontâneas que, não requerem nenhum tipo de material ou preparação (logo, podem “ser brincadas” a qualquer hora, em qualquer lugar), que favorecem o desenvolvimento da linguagem (formas, cores, números, passos), favorecem o desenvolvimento motor (equilíbrio, motricidade global) e afetivo-cognitivo (compreensão de regras, sequência).

Ao mesmo tempo, são brincadeiras que podem ser “transformadas” facilmente em “jogos de brasileirar” (estou forte no neologismo hoje). Por exemplo, no jogo de “memória verbal” fazer sequências de frutas que só existem no Brasil, personagens de desenhos ou livros do Brasil, meses do ano que pessoas da família ou amigos fazem aniversário (em Português), ou achar formas em nuvens de animais típicos da fauna brasileira, jogar vôlei de praia de bexiga (ainda que na sala), contar uma história ou fazer um improviso musical com tudo o que vocês (como família) mais gostam quando vão ao Brasil.

Além de brincadeiras que “parecem brincadeira mesmo”, nós não devemos perder a oportunidade de trazer elementos da nossa cultura em outras oportunidades.

Lembra da época que histórias, folclore, parlendas eram passadas de vó, pra filha, pra neta?

Não perca a oportunidade de contar para seus filhos o que você fazia “quando era criança”, de pedir para a vovó em visita, para cantar as músicas que ela cantava para você na hora de escovar os dentes, de contar como era crescer na fazenda sem internet nem televisão, se você pulava elástico, pulava corda, pule com eles, com as musiquinhas que acompanhavam (“um homem bateu na minha porta e eu, abri, senhoras e senhores, põe a mão no chão…”).

Se na correria matinal sobrar um tempo pra contar o que você comia quando tinha 6 anos (eles adoram isso), como você ia para a escola lá no Brasil, do que você brincava na hora do recreio. Estas conversas, criam conexões (neuronais através do afetivo, e conexões concretas – “minha mãe já foi criança igual eu…eu vou pra escola assim, ela ia assado…eu vou aqui, ela ia no Brasil) e trazem o Brasil e sua cultura também pra mais perto do coração dos nossos brasileirinhos.

E assim, eles (e nós) vamos saber bem que em casa a gente escolhe com “minha mãe mandou…”, mesmo que na escola a gente escolha com “mini mini mini mo” e que isso, é muito divertido, é muito rico, é um privilégio. E é assim também que nossos brasileirinhos vão crescendo progressivamente mais abrasileirados, sentindo-se confortáveis e “em casa” não só com a língua, mas também com a cultura que a envolve.

A dica do dia então, é: brinque toda hora, brinque de brasileirar… e garanto, a bandeira de desenvolvimento dos seus filhotes vai ser “ordem e progresso” .

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