O Dia Mundial do Português como Língua de Herança (PLH)

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Como foi anunciado recentemente, a Brasil em Mente, em parceria com outras diversas iniciativas que promovem o ensino do Português como Língua de Herança, está propondo a criação de um dia especial dedicado para o PLH. Essa proposta é uma forma de homenagear o crescente e importantíssimo trabalho desenvolvido por professores, colaboradores e famílias que tanto se esforçam e se dedicam em quebrar limites e barreiras, mantendo vivo o Português e sua cultura, onde quer que a vida os leve.

O desejo é de que, a partir de agora, todo ano, no dia 16/05, possamos ter a oportunidade de comemorar o sucesso, a superação de desafios, e a importância do PLH de maneira integrada e com um grande espírito de união, por mais que estejamos distantes geograficamente uns dos outros. A escolha do dia 16/05 está explicada aqui.

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A felicidade de ver, a cada dia, mais e mais iniciativas se juntando e dando força à criação do Dia Mundial do PLH é imensa! O ensino do Português pelo mundo como uma língua de herança representa exatamente isso: um campo de trabalho que une diversas pessoas em objetivos e desafios em comum, sejam essas pessoas os profissionais envolvidos, os pais ou as crianças.

Gostaríamos de ressaltar que o grande sucesso que as iniciativas voltadas ao ensino do PLH tem tido se deve, quase que exclusivamente, à visão, à paixão e ao empreendimento de pessoas que, mesmo sem qualquer apoio financeiro, arregaçam as mangas e começam a plantar as sementes do Português pelo mundo afora.
Esses profissionais merecem todo o reconhecimento e reverência, afinal de contas, o que eles proporcionam às famílias que participam de suas iniciativas é decorrente de muito trabalho: como pesquisadores, como professores, como orientadores e apoiadores das famílias e como desenvolvedores de estratégias maravilhosas para que o Português siga fazendo parte ativa da vida das famílias que possuem raízes em qualquer um dos países luso-falantes.

Vamos lutar juntos para que o dia 16/05 seja um dia feliz de celebração e de reconhecimento a todos que realizam o extraordinário feito de promover o Português como Língua de Herança. Você trabalha em uma iniciativa assim? Entre em contato! Junte-se a nós!

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

Os monolíngues e os bilíngues

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Uma prática muito comum nos estudos e reflexões a respeito do bilinguismo é a comparação de bilíngues com monolíngues; uma comparação quase que natural para nós brasileiros, uma vez que estamos mais habituados a pensar na aquisição de linguagem no “modo” monolíngue. Com o crescimento do processo de aquisição bilíngue, estamos tendo cada vez mais estudos e pesquisas voltados para essa área e, portanto, estamos conhecendo cada vez mais sobre o universo bilíngue.

Com mais informações sobre o que acontece no processo de aquisição bilíngue, devemos começar a nos perguntar: até que ponto podemos ou devemos estabelecer comparações entre o desenvolvimento de linguagem de monolíngues e bilíngues? Quando pensamos nas habilidades de linguagem dos bilíngues, por que mesmo atualmente o monolíngue continua sendo tomado como norma?

Fato é que padrões monolíngues de aquisição de linguagem costumam ser tomados como ponto de referência para um “julgamento” sobre as produções de fala bilíngues. Inúmeros estudos insistem nas diferenças entre monolíngues e bilíngues como se elas fossem inesperadas, e colocam o monolinguismo como referência, como se o monolinguismo fosse algo excepcional (CRUZ-FERREIRA, 2014). Para Cruz-Ferreira (2014), uma fala “saudável” não se refere à fala de um dialeto padrão e também não se refere à fala monolíngue.

Assim, a questão é: com base em que padrões estamos avaliando os bilíngues?

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Erros fazem parte do processo de aquisição de linguagem tanto monolíngue quanto bilíngue, e são excelentes pontos de referência sobre o caminho que as crianças percorrem nesse processo. No entanto, é adequado comparar os erros de monolíngues e bilíngues?

Depende. Se a proposta é detectar diferenças existentes entre monolíngues e bilíngues com o objetivo de melhor compreender cada um deles de forma distinta, então sim, temos um olhar adequado para as especificidades de cada processo. Estudos dessa natureza trazem excelentes informações, por exemplo, para professores que lidam com alunos monolíngues e bilíngues numa mesma sala de aula.

No entanto, se a proposta do estudo é comparar monolíngues e bilíngues com o objetivo de chegar a rápidas conclusões a respeito do bilinguismo usando o monolinguismo como norma, como referência, temos um exemplo de uso inadequado dos dados.

A avaliação da aquisição de linguagem bilíngue deve ter como ponto de referência um padrão bilíngue. Deve-se reconhecer no entanto que, devido ao incentivo e a valorização do bilinguismo serem relativamente recentes, um problema que ainda encontramos é a falta de estudos consistentes sobre padrões de aquisição bilíngue. No caso do Português, em particular, a literatura sobre aquisição bilíngue que envolve o Português como um de seus pares é bastante escassa.

Mesmo assim, é simples compreendermos que bilíngues vão apresentar erros diferentes de monolíngues pelo fato de estarem imersos em um processo distinto. Para Jackson-Maldonado (2004), o fato de os erros serem diferentes daqueles apresentados por monolíngues não significa que constituam um problema de linguagem. O autor afirma que muitos erros têm sido considerados como um sinal de distúrbio de linguagem quando eles deveriam ser interpretados como uma manifestação do processo normal de aquisição bilíngue.

Na verdade, ao acompanharmos o processo de aquisicão de linguagem bilíngue, alguns tipos de erros devem ser esperados. Por exemplo: a distinção “ser/estar” pode ser em algum momento do processo de aquisição afetada pelo contato com outra língua que não apresenta a mesma distinção (JACKSON-MALDONADO, p. 155, 2004), como é, por sinal, o caso do bilinguismo Português/Inglês.

A ideia geral é de que seria “ingênuo” esperar que o processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem bilíngue seguisse o mesmo percurso que de crianças monolíngues. Sim, precisamos de mais estudos e pesquisas para melhor compreender o universo bilíngue, mas desde já podemos perceber como que a comparação “monolíngues vs bilíngues” deve ser sempre feita com muito cuidado, buscando o entendimento de características de cada um desses processos, sempre deslocando e desestabilizando o monolinguismo do posto de norma ou referência para a aquisição da linguagem.

Referências Bibliográficas
CRUZ-FERREIRA, M. Accent, dialect, or disorder? Being Multilingual, Fevereiro/2014. Disponível em:
http://beingmultilingual.blogspot.com/2014/02/accent-dialect-or-disorder.html
JACKSON-MALDONADO, D. Verbal Morphology and Vocabulary in Monolinguals and Emergent Bilinguals. In: GOLDSTEIN, B. A. Bilingual Language Development & Disorders in Spanish-English Speakers, 2004, p. 131-161.

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

Os Sons na Música

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

Há algum tempo, falamos um pouco sobre a importância da música no processo de aquisição de linguagem e, em particular, no processo de aquisição do Português por crianças que vivem fora do Brasil.

Hoje vamos destacar alguns elementos específicos da música que auxiliam no processo de percepção dos “sons” do Português: o ritmo das sílabas, as rimas, as vogais e as consoantes.

Uma das belezas da música é que ela amplia as possibilidades de “brincar” com os sons e as palavras. É um espaço em que a forma sensível e criativa com que muitos compositores e cantores percebem a sonoridade da língua pode se manifestar e, pensando nas crianças brasileirinhas que não vivem no Brasil, pode auxiliar no desafio de trazer seu brasileirinho mais pra perto do mundo do Português.

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Um dos elementos sonoros que a música permite explorar de formas variadas é a sílaba. Muitas músicas infantis incorporam em seu ritmo o ritmo das sílabas, como por exemplo, as alternâncias entre sílabas acentuadas e não-acentuadas. Para coordenar a pronúncia das palavras, saber em qual sílaba “cai” o acento é um importante passo. Uma música que marca uma distinção entre sílabas acentuadas e não-acentuadas é “Fome Come”, do grupo Palavra Cantada.

Nessa música, a ênfase nas sílabas acentuadas é dada não apenas no canto, mas também pelos instrumentos musicais que apresentam uma batida mais forte em sílabas acentuadas, em especial em sílabas acentuadas de palavras que estão no final dos versos. Esse é um padrão muito comum na entonação das frases do português, onde o acento principal de sentenças cai na última palavra.

A cantiga popular “O Sapo Não Lava o Pé” é outro exemplo de como se pode chamar a atenção para as sílabas, uma vez que ao longo da música, é necessário usar a mesma vogal para todas as sílabas, desde a vogal “a” até a vogal “u”. Nesse caso, a atenção deve estar voltada não apenas a cada uma das sílabas, mas também na manutenção da mesma vogal cada vez que se canta “o sapo não lava o pé” (V sVpV nV lVvV V pV), V correspondendo à vogal que deve preencher cada sílaba. Para crianças que não moram no Brasil e não estão o tempo todo cercadas pelos sons do português, enfatizar os sons que fazem parte da nossa língua é um ponto importante para minimizar um possível (e normal) sotaque.

Ainda quanto às vogais, é interessante notar que, no canto, elas são geralmente mais enfatizadas do que as consoantes. Uma característica presente no canto é que a duração das vogais tende a ser maior do que na fala. Um dos motivos é o fato de as vogais serem mais “sonoras” do que as consoantes. Na maioria das músicas você pode perceber uma ênfase nas vogais, que geralmente são produzidas com uma duração consideravelmente maior que na fala.

Como consequência de terem menos sonoridade que as vogais, as consoantes são menos frequentemente enfatizadas em músicas. Mas existem músicas que encontraram jeitos de destacar esses sons. Em algumas músicas, pode-se perceber uma repetição de padrões que é relacionado às consoantes. A música “Pé com Pé”, da dupla Palavra Cantada, por exemplo, ao explorar diferentes sentidos que temos associados à palavra “pé”, acaba por colocar uma ênfase nessa consoante.

Outra música que consegue dar um destaque para algumas consoantes é a Menina Moleca, também da dupla Palavra Cantada. Nessa música, podemos ouvir algumas vezes o jogo entre os sons das palavras “moleca” e “maluca”, palavras que mantêm as mesmas consoantes na mesma sequência em cada sílaba. Além disso, em alguns versos, existe a repetição de algumas consoantes, como em: “Ela diz que cata jaca no pé de jacarandá. Que mata um tatu do tamanho de um tamanduá. E que bumba meu boi é o bumbum de um boi bumbá […] Esperta que é danada é doidinha pra dançar. Chamou o batuntã do Butantã pra batucar”.

Por fim, um elemento sonoro que está (quase) sempre presente nas músicas é a rima. Como a gente sabe, a criançada adora brincar com as rimas das palavras! Teríamos uma infinidade de exemplos de músicas que utilizam a rima em sua composição. Destacamos duas: a cantiga popular “A Barata Diz que Tem” e a música “Sopa”, da dupla Palavra Cantada. Essas duas músicas exploram a rima de uma forma que nos permite criar brincadeiras semelhantes com as crianças. Basta seguir a trilha de ideias e criatividade que as músicas deixam de presente pra gente!

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

Feliz Natal e Ano Novo, Brasil!!!

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

ornamentoE chegou dezembro! Um mês especial por várias razões: as festividades do Natal e do Ano Novo, as luzes e enfeites que tornam as cidades mais bonitas e alegres, a autoavaliação do ano que passou, e uma lista renovada de planos para o próximo ano que nos ajudam a renovar nossas esperanças para o início de mais um novo ciclo!

Assim, dezembro é um mês que nos dá de presente muitas práticas e tradições que podemos utilizar como recurso no desafio diário de ensinar o Português como Língua de Herança para nossos brasileirinhos.

Então vamos lá! Aqui vão algumas ideias de atividades que podemos desenvolver junto aos brasileirinhos:

1) O vocabulário do Natal:
O Natal é uma festa que apresenta um vocabulário rico e específico. Nessa época do ano, os brasileirinhos podem aprender sobre a história do Natal, o nascimento de Jesus, a árvore de Natal e seus enfeites – bolas, estrelas, anjos, etc –, o Papai Noel, os ajudantes do Papai Noel, o trenó, as renas, os presentes, o sino do Papai Noel, o boneco de neve, as cores do Natal, dentre muitos outros elementos que fazem parte do Natal.
As atividades que podem ser desenvolvidas podem variar de acordo com a idade das crianças e as tradições de cada família. Algumas sugestões são:

– cantar músicas de Natal! Existem muitas músicas de Natal que as crianças adoram. E, claro, existem músicas de Natal que já foram feitas pensando exclusivamente nelas! Aí vai um lindo exemplo:

O Meu Papai Noel, Palavra Cantada.

– imprimir desenhos do Natal para colorir. Fazendo uma busca por imagens de Natal na internet é possível encontrar muitos desenhos lindos que as crianças amam pintar!;

– contar a história do nascimento de Jesus. Existem livros direcionados para as crianças que podem auxiliar nessa atividade;

– pedir às crianças que ajudem a montar a árvore de Natal. Não esqueçam de colocar um símbolo do Brasil na árvore. Pode ser uma bandeirinha do Brasil!;

– andar pela vizinhança para ver os enfeites de Natal das casas.

2) Cartinha para o Papai Noel:
E aí, seu brasileirinho já escreveu sua cartinha para o Papai Noel? Se ele já é alfabetizado em Português, peça que escreva uma! Você pode ficar do lado, ajudando nas ideias e na estruturação da carta: como começamos a carta (ex: Querido Papai Noel); como o texto pode ser organizado e também como podemos terminar a carta.
Se seu brasileirinho está no processo de alfabetização, os pais podem ajudar não apenas nessa estrutura mais geral de uma carta, mas também em relação às regras ortográficas do Português.
Se ele ainda não é alfabetizado em Português, ajudá-lo a escrever uma cartinha para o Papai Noel pode ser um momento importante de contato com o mundo escrito do Português!

Ou seja, essa atividade pode trazer benefícios para seu brasileirinho independente da idade ou proficiência em relação à escrita em Português.

3) Carta de final de ano para familiares:
Seguindo o mesmo princípio da carta para o Papai Noel, outra opção é que os brasileirinhos escrevam cartas com mensagens de Feliz Natal e Ano Novo para familiares. Pode ser em formato de cartão, de carta, ou mesmo um email!

4) A retrospectiva do ano que passou:
Hora de parar para avaliar os principais acontecimentos, erros e acertos do ano!
O que aconteceu durante o ano de 2013 que seu brasileirinho mais gostou? E o que ele não gostou?
Quais foram os ganhos em relação ao uso do Português? Ele começou a escrever? Já está alfabetizado? Yay! Não podemos nos esquecer de valorizar as mudanças positivas!!

Quanto aos erros, pode ser um momento de ensinar sobre consequências. Claro que não de uma forma dura, ok? Os erros são fonte importante de aprendizado a vida toda. A gente aprende fazendo, acertando ou errando, tentando de novo de uma nova maneira se for preciso, não é mesmo?

Mesmo que seu brasileirinho ainda seja bem novinho, não podemos menosprezar a capacidade das crianças em compreender, aos pouquinhos, que um futuro melhor está nas mãos de cada um de nós!

5) Os planos para o próximo ano:
Ah, que delícia! Novos planos, novas ideias!Depois de avaliar o ano de 2013, que tal pensar junto com seu brasileirinho o que ele deseja para 2014? Vamos fazer uma lista?

Espero que essas ideias sejam bem-vindas e que auxiliem a aproximar cada vez mais os brasileirinhos de sua língua de herança!
Desejo que todos tenham um Feliz Natal e um Excelente e Próspero Ano Novo! E muito Português para nossas famílias de raízes brasileiras!

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.

Infância e consumo

Por Luciana Lessa, PhD
Coluna Falando

No mês passado tivemos o Dia das Crianças. É possível notar que a cada ano, parece estar aumentando a quantidade de alertas contra um consumismo exagerado e a favor de um dia das crianças mais voltado à presença dos pais, passeios, brincadeiras, atividades e jogos infantis.

Por que tal tema é importante de ser pensado na educação dos filhos? Atualmente, as crianças têm sido um dos principais alvos de propagandas que incentivam um consumo desenfreado. Assim, é importante buscarmos entender os mecanismos usados em propagandas para que possamos pensar sobre como tais propagandas injetam um desejo e uma necessidade de consumo nas pessoas, especialmente nas crianças que ainda estão no início de um longo processo de desenvolvimento de princípios e valores.

Segundo Campos et al (2012), “é tarefa impossível dar conta da complexidade e multiplicidade de padrões de consumo. Entretanto a busca por definições e clareamento de conceitos e práticas faz-se válida e imperativa para que se compreenda, ainda que de modo parcial ou superficial, esse fenômeno que envolve todas as sociedades capitalistas”.

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Assim, este texto não se trata de definir como cada pessoa ou família deve ou não se comportar como consumidor, mas tem como objetivo levantar alguns aspectos relevantes para uma reflexão que favorece o consumo consciente, o que pode nos auxiliar no modo como orientamos as crianças em relação a esse aspecto de nossas vidas.

O mercado busca conhecer o consumidor com o objetivo de “fornecer estímulos em relação a determinado bem ou produto, no sentido de satisfazer suas necessidades e desejos. O importante é conhecer os grupos de consumidores tão bem a ponto de saber como eles selecionam, compram, usam e descartam as mercadorias” (SEIXAS, 2009).

Neste texto, destacaremos dois aspectos que são explorados em propagandas de bens e produtos com o objetivo de criar o desejo e a necessidade de consumo, que são: (a) a marca; e (b) a criança.

De acordo com Seixas (2009), a “sociedade de consumo diluiu a própria noção de classe na visão econômica, onde o trabalho é que determinava às relações sociais, diferenciando os indivíduos em patrões e empregados (ou seja, burguesia e proletariado)”. Hoje, é o consumo que diferencia ou reforça a identidade do sujeito dentro da hierarquia social.

Assim, atualmente, os bens de consumo tornaram-se objetos mediadores das relações interpessoais, funcionando como indicadores do grupo a que as pessoas pertencem e são ou não aceitas. No nível pessoal, esses bens teriam também a função de satisfazer no consumidor sentimentos como felicidade, bem-estar, beleza, juventude (TELLES et al, 200?).

Considerando, portanto, esse valor simbólico dos bens de consumo, um ponto fortemente explorado em propagandas é a marca. A escolha dos produtos a serem consumidos deixou de ser apenas baseada pelo seu “valor de uso”; a marca é um fator altamente influenciador das decisões de compra. Ela “agrega valores subjetivos, empresta personalidade e é componente fundamental das identidades contemporâneas” (TELLES et al, 200?).
Em sua pesquisa, Telles et al (200?) observaram que há muitos produtos com mais de uma marca e os produtos se tornam mais conhecidos quando uma determinada marca associa sua imagem a uma celebridade. “Em alguns casos, o spot publicitário sequer chega a exibir o produto, focando a marca ou a celebridade, que por si só já seriam suficientes para os fins de divulgação e vendas” (SEVERIANO apud TELLES et al, 200?).

Ok, como adultos, e conscientes desse tipo de estratégias utilizadas pelo mercado de consumo, temos condições de ponderar qual seria nosso lugar e nossas atitudes como consumidores. Mas e as crianças? Por que devemos ficar atentos com o aumento cada vez maior de estratégias publicitárias que têm como objetivo conquistá-las como fieis consumidores de marcas, ou de produtos vinculados a desenhos infantis e celebridades?
Segundo Schmidt (2012), “não podemos esquecer que numa sociedade de mercado, tudo é tratado como mercadoria, inclusive a infância”. De acordo com essa autora, segundo dados do Instituto Alana, crianças com até oito anos de idade, não são capazes de distinguir entretenimento de publicidade.

Além disso, podemos acrescentar que, estando a criança ainda em um processo inicial de formação de sua identidade e personalidade, sua fragilidade é muito maior diante de propagandas que ditam que “usando o produto X, você vai ser a princesa que sempre sonhou”, ou “você vai arrasar”, dentre muitas e muitas outras mensagens apelativas.
Tendo esse cenário em vista, é essencial desenvolvermos uma reflexão crítica a respeito das informações e imagens que chegam até nós e nossa família, especialmente quando o alvo principal é a criança.

Referências Bibliográficas
CAMPOS, A. Q., DIAS, A. R., PERASSI, R. Identidade, Marca e Consumo: Construções Simbólicas na Tessitura da Cultura. Revista do Centro de Artes da UDESC, Nº 9, Ago/2011-Jul/2012.
SCHMIDT, S. Mídia e consumo infantil: um desafio da comunicação e educação. IX Anped Sul: Seminário de Pesquisa em Educação da Região Sul, 2012.
SEIXAS, A. P. Grife isso: Eu uso marcas de luxo! Uma análise do consumo de produtos de grifes por indivíduos de classes populares. Dissertação [Mestrado em Sociologia], UFMG, 2009.
TELLES, Y. X. A. S., OLIVEIRA, R. J. A., SEVERIANO, M. F. V. O poder das marcas na sociedade de consumo: mídia, celebridades e licenciamentos. Universidade Federal do Ceará, 200?.

Luciana Lessa é Doutora em Linguística, é parte do corpo docente da Georgia State University e participa de importantes grupos de discussão sobre a aquisição da linguagem falada e escrita. É autora da coluna Falando na Plataforma Brasileirinhos e diretora do grupo de discussão e formação de professores da Brasil em Mente.